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domingo, 26 de outubro de 2014

Educandário Gonçalves de Araújo: uma pequena história do prédio da Teixeira Júnior



Uma pesquisa nos antigos jornais do acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (http://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx) nos permitiu descobrir informações interessantes sobre o prédio em que foi instalado pela Irmandade da Candelária, em 1953, o então Departamento Masculino do EGA.

As evidências encontradas indicam que sua construção é anterior a 1897, ano em que o imóvel foi adquirido pelo padre Manuel Lobato Carneiro da Cunha com a finalidade de ali instalar o Colégio Pio Americano, fundado nesse mesmo ano, mas que funcionava na rua São Cristóvão. Em novembro de 1897,  antes mesmo da transferência do colégio para suas novas instalações, padre Lobato inaugurou a capela que mandara construir.

Entre o material disponibilizado pela Biblioteca Nacional encontramos algumas imagens antigas, ainda como sede do Colégio Pio Americano, algumas das quais apresentamos aqui.

A primeira delas data de 1904 por ocasião da solenidade de encerramento do ano letivo, evento que contou com a presença do presidente da república, Rodrigues Alves.


O presidente Rodrigues Alves, ao centro, tendo à sua esquerda monsenhor Manuel Lobato, diretor do Pio Americano. À direita do presidente estão o ministro Joaquim Seabra e, parcialmente encoberto, o barão de Ramiz Galvão, diretor do EGA. (A foto foi tomada diante das salas do térreo que hoje dão para o pátio de recreação. Os vãos arredondados das portas seriam depois modificados com as obras executadas no prédio em 1952, após sua aquisição pela Irmandade da Candelária) - (clique sobre a foto para ampliar)

Fotos  ainda mais interessantes aparecem em publicações de 1920 e 1926. Elas conseguiram captar toda a fachada do prédio, o que não seria possível hoje em dia por conta das copas  das árvores que dão sombra à Teixeira Junior.

Fachada do Pio Americano em 1920.


Fachada do Pio Americano em 1926

Também de 1926 é a foto que mostra o pátio interno do colégio. Essa imagem permite uma visão das molduras das portas do andar térreo diante das quais se fotografou a visita do presidente Rodrigues Alves em 1904. Também se percebe a estrutura das varandas, que seriam modificadas depois nas reformas promovidas pela administração da Candelária.


Pátio e varandas do Pio Americano, em 1926, com os alunos em forma.

A imagem seguinte, publicada em 1941, permite identificar algumas das características originais da fachada e da varanda do bloco central. Também se vê que o acesso ao prédio era feito por uma rampa e não pelas escadas como hoje ocorre.

Outra curiosidade é que o prédio já tinha o número 48, por conta da renumeração adotada em 1909. Só em 1950 é que passaria a receber o atual número 158.

A capela passou por reformas após a aquisição do prédio pela Candelária e foi reinaugurada em 1956, mas não se notam alterações significativas em sua fachada, exceto uma porta lateral que desapareceu.


Anúncio de 1941

Na versão atual a fachada do prédio perdeu alguns adornos em relação ao projeto original, alteração que veio contribuir para realçar o estilo gótico da capela, que foi preservado.



Fachada atual, cuja vista fica prejudicada pelas copas das árvores e pela fiação (fonte: Google Earth).

segunda-feira, 30 de abril de 2012

O antigo hino do EGA


Minha irmã, que também foi aluna do EGA nos anos 50-60, esteve no ano passado (2011) de volta ao colégio (o antigo Departamento Feminino, no Campo de S. Cristóvão) para uma missa em louvor ao patrono Antonio Gonçalves de Araújo. Já não funcionava mais o regime de internato e ela achou tudo muito mudado em relação ao tempo em que ali estudou.

O contato com o ambiente e com algumas alunas antigas, entretanto, estimulou sua memória e ela se lembrou de um hino do qual eu já não tinha a menor idéia. Era o antigo hino do educandário cuja letra, ela garante, seria assim:


“Da orfandade e da pobreza

feriu-nos o agudo espinho,

da aurora da vida em prantos,

sem amparo e sem carinho.



Mas deu-nos plácido asilo

Araújo o grande amigo.

Legou-nos conforto, vida, luz,

amor, ternura e abrigo.



Protetor bendito salve,

que a dor converteste em risos.

Coroas teçam-te os anjos

na glória do paraíso.

Salve! Salve!"



Henrique Pinto, que foi meu colega na Teixeira Jr, também se lembra de que esse hino era igualmente cantado no Departamento Masculino. Recordou-me que foi ensinado e ensaiado por uma "professora" chamada Da. Inez que nos havia dado algumas aulas de música durante certa época. Diz que ela também nos ensinou o "Canto do Pagé" de Heitor Villa Lobos, depois cantado pelo nosso colega Roberto em uma comemoração. A partir de então, diz ele, em quase todas as festas do EGA nós cantávamos este hino.

Hoje em dia, segundo contaram à minha irmã, o antigo hino não é mais cantado, tendo sido substituído por um mais moderno.

Tentei encontrar alguma referência sobre o velho hino e tudo o que descobri foi uma notícia sobre um hino a Gonçalves de Araújo cuja autoria era atribuída ao maestro Francisco Braga e a letra ao barão de Ramiz Galvão. A data não é informada, mas é provável que seja das primeiras décadas do século passado.

Essa indicação está no catálogo da “Exposição comemorativa do centenário de Francisco Braga (1868-1945), publicada pela Biblioteca Nacional (RJ), e que está atualmente disponível em versão digital que pode ser acessada pelo link abaixo. A referência ao hino está na página 83, onde é dada como peça não encontrada nos vários acervos de obras de Francisco Braga. Será o mesmo hino?

Ramiz Galvão, como se sabe, foi o primeiro diretor do EGA, desde sua fundação em 1900. O maestro Francisco Braga, por outro lado, conhecido como autor do hino da Bandeira, teria sido, segundo a fonte mencionada, aluno de um “Asilo para Crianças Desvalidas”, onde ficou interno dos 8 aos 18 anos de idade.


http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_iconografia/icon1285813.pdf



quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Leituras

A curiosidade é uma das maravilhas da espécie humana. Depois da saudade da família o que mais eu sentia no internato era a limitação do exercício da curiosidade pela carência de informações e de novidades que a estimulassem. Aquilo acabava acentuando a sensação de exclusão do mundo.

Volta e meia alguém levava um jornal para o colégio. As freiras liam, faziam comentários entre si, mas era difícil entender o conteúdo daquelas conversas. As crianças não tinham acesso aos jornais. Melhor dizendo, só tínhamos acesso aos seus fragmentos. Era quando precisávamos de papel para ir ao banheiro. Para não onerar o orçamento as freiras recortavam os jornais velhos em pedacinhos e nos davam meia dúzia deles cada vez que tínhamos que ir fazer as nossas necessidades. Com alguma sorte conseguíamos juntar dois pedaços de uma mesma página e encontrar alguma novidade interessante. Eram sempre lidos e relidos com muita atenção. Quando não dava para entender, tentava-se advinhar. Líamos desde os pequenos anúncios, necrológios, até as corridas de cavalos. Nada escapava. Com sorte ganhava-se uma tirinha do Pinduca, ou do Reizinho.

As outras formas de obter informações acabavam nos sujeitando a riscos e punições. Um dia acabei passando por uma experiência dessas.

O episódio aconteceu em 1957, na época em que a Irmã Alegria estava doente. Quando ela foi para o hospital algumas funções tiveram de ser redistribuídas. No horário das refeições, por exemplo, era costume a Irmã Alegria ficar no andar de cima, de plantão, para atender algum eventual chamado de telefone ou do portão. As outras freiras desciam para o refeitório junto com a criançada. Assim, na ausência da Irmã Alegria foi preciso escalar algum dos meninos maiores para que assumissem aquele papel. Como eu fazia parte desse grupo e gozava de bom conceito com as freiras quase sempre era escolhido. Claro que à custa da fome encompridada. Depois, em compensação, servia-me à vontade.

Num desses plantões encontrei sobre a máquina de costura que ficava na sala onde tinha que guardar o meu posto, um exemplar de “O Cruzeiro”. Naquela época era a revista de maior circulação no país, famosa por ter introduzido e explorado ao máximo as técnicas do foto-jornalismo: quanto maior a foto, maior a polêmica ou o escândalo, ou vice-versa. O exemplar havia sido deixado por um sobrinho da Irmã Vicência, o Elias, que fazia faculdade e que freqüentemente ia visitar a tia.

Curioso para saber o que acontecia no Rio de Janeiro e no resto do mundo, mas também para esquecer a barriga vazia, pus-me a folhear a revista a começar pela sempre engraçada página de “O Amigo da Onça”. E assim o tempo passou sem que eu desse por ele. Quando um colega me veio dizer que já podia descer para almoçar, fechei a revista e recoloquei-a onde a tinha encontrado. Já o almoço e o recreio me haviam feito esquecer da revista e do que nela tinha visto quando fui chamado à presença da freira. Ela me aguardava na sala, de pé, ao lado da máquina de costura. Estava brava: dera-se conta de que o objeto da minha curiosidade não estava exatamente no lugar em que fora deixada e tinha deduzido que eu havia lido a revista.

Até ai não achei que o assunto fosse grave. Uma bronca, um puxão de orelha, talvez. Não podia imaginar que ler uma revista tão popular e que servia de leitura para as freiras e seu sobrinho fosse algum pecado. Foi preciso que as freiras explicassem, não sem algum constrangimento, que aquela revista em particular continha muitas fotos do carnaval e fotos de muitas pessoas com roupas inadequadas para entrar num colégio de freiras, muito menos para serem vistas pelos olhos de um garoto que deveria se conservar inocente. Tentei argumentar, mas de nada adiantou. Tomei um baita sermão e fiquei sem direito de assistir à próxima sessão de cinema.

Nessa época eu já tinha onze anos, uma idade em que já se sabe um pouco de muita coisa e que se quer saber mais ainda. Idade suficiente para se ter algumas noções de certo e errado e de justiça. Achei que se me consideravam bom aluno e bem comportado a ponto de justificar que as freiras me dessem encargos maiores, essas condições deveriam também contar a meu favor, para minhas faltas ou deslizes. Talvez tivessem reconsiderado se eu soubesse argumentar melhor meus pontos de vista. Mas não soube e daí minha frustração. Chorei, ressentido, achando que o fato de não me terem dado o crédito que eu entendia merecer era castigo pior do que ter ficado sem cinema.

De qualquer forma a curiosidade não morreu ali. Mas ficou a lição: depois disso nunca mais deixei de prestar muita atenção no lugar e na posição em que as freiras esqueciam os novos exemplares de « O Cruzeiro ».

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A morte da irmã superiora

A morte era algo distante, como quase tudo o que acontecia no mundo real fora do colégio. Mesmo assim chegavam até nós as notícias mais trágicas envolvendo pessoas famosas, como o suicídio de Vargas em 1954 e a morte de Carmen Miranda, no ano seguinte. Foram casos que comoveram todo o Brasil e as freiras os comentavam entre si ou com as professoras.

Ali dentro a preocupação era apenas com o destino das nossas almas. Tínhamos que fazer o que a religião nos ensinava para merecermos sempre o reino dos céus. Mas era uma preocupação para dali a muitos anos. Criança não podia morrer, pelo menos não devia. Natural, isso sim, era que uma pessoa idosa ficasse doente e depois morresse.

E foi assim que, um dia, a morte veio bater à porta do colégio. Foi em 1957. Veio buscar a Irmã Alegria, nossa diretora. Ela era mesmo a pessoa mais velha do internato.

Ficamos sabendo que ela estava doente ainda no primeiro semestre daquele ano porque durante vários dias ela não saía do seu quarto. Seria uma indisposição segundo as outras irmãs. Depois veio o médico e receitou-lhe alguns medicamentos. O quadro deve ter piorado porque a levaram para um hospital no Matoso, que pertencia à congregação das vicentinas. Nós não sabíamos exatamente de que mal ela sofria. Mas desconfiávamos que era alguma coisa grave. Na hora das orações rezávamos sempre pelo seu restabelecimento.

Em julho ou agosto ela voltou ao internato. Estava muito mais magra e pálida. Sua aparência era extremamente frágil e parecia até que era o pesado hábito que a mantinha de pé. Sua voz era um fiapo e já não conseguia reproduzir a autoridade da madre superiora e da severa professora do 3º ano.

Viera apenas para se despedir. Depois de algumas semanas voltou para o hospital. Faleceu no dia 6 de setembro. Tinha 75 anos de idade.





O santinho que marcou o falecimento da Irmã Alegria.


Depois da morte da irmã Alegria é que ficamos sabendo que ela tinha câncer, então considerada uma doença muito grave e fatal. Alguns meninos diziam conhecer casos na suas famílias. Contavam que era uma coisa terrível, um tumor que devorava as pessoas por dentro, até a morte. Que geralmente dava em pessoas mais velhas, mas em crianças também. Diziam ainda que era contagioso e algumas outras bobagens. Aquelas conversas  arrepiavam e enchiam a todos de preocupação.

Depois desse episódio nunca mais se ouviu falar em morte no colégio. Irmã Vicência e irmã Luiza, deixaram o internato nos anos 70, com muita saúde, e tiveram as duas vidas longas. A irmã Vicência passou dos cem anos, e a irmã Luiza, chegou perto dessa marca.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Uma professora muito especial

Quando eu ainda vivia em Portugal havia freqüentado um jardim de infância que funcionava na casa de uma senhora vizinha. Tinha de usar um guarda-pó sobre a roupa, como uniforme, e carregava comigo uma pequena lousa para rabiscar as letras ou desenha. Era um quadro-negro portátil. Mas foi por pouco tempo e não cheguei a aprender grande coisa. No Brasil, ao completar sete anos, ainda estávamos em fase de adaptação e a prioridade da família era encontrar uma casa para morarmos e buscar alguma forma de sustento. A escola teria que esperar.

As lousas antigas, da minha primeira escola em Portugal.
A foto "L'information scolaire, Paris, 1958"
é de autoria do francês Robert Doisneau (1912-1994),
obtida no site www.robert-doisneau.com, em 24/07/2010 

A curiosidade é que não esperou. Era meu vizinho o primo Affonso, quatro anos mais velho que eu e já bem adiantado na escola. Como ele era filho único, meu irmão e eu éramos os seus companheiros de brincadeiras. Na rua e em casa. E quando ele tinha que fazer os deveres de escola eu pedia para ficar ao seu lado na mesa desenhando ou rabiscando qualquer coisa. Dava-me algumas folhas de caderno e, brincando, foi assim que aprendi as primeiras lições. Começou por me passar palavras para copiar e a me ensinar aritmética, que era o que eu mais gostava. Com o passar do tempo já resolvia com rapidez os problemas mais simples e logo lhe pedia outros. Assim, aproveitando os lápis, papel e a paciência do Afonso, quando entrei no Educandário já sabia ler, escrever e fazer as quatro operações. Aprendia brincando. O primo Affonso acabou por se tornar o meu primeiro professor.

No Gonçalves de Araújo tive apenas três professoras. Dona Glorinha (Maria da Glória, já não me lembro o sobrenome), da 2ª série, era a paciência e a bondade em pessoa. Na 3ª série foi a vez da Irmã Alegria, muito severa. Os anos já lhe pesavam e não tinha tanta paciência;  mais cobrava do que ensinava. Foi a dona Maria Luiza  (Feijó Figueira), na 4ª série, a primeira professora de verdade, a professora das lições mais difíceis.

Tinha cerca de cinqüenta anos. Muito magra e sempre vestida com sobriedade aparentava ser uma mulher frágil. Mas a sua energia parecia inesgotável quando assumia o seu papel de professora na sala de aula. Apesar de sermos apenas cinco alunos, pobres e de futuro duvidoso, ela se empenhava como se fosse a missão da sua vida. Em troca, exigia nossa dedicação. Era rígida com a matéria sem ser severa com os alunos. Mas não ficava por aí. A sua forma de nos envolver com as lições tinham o dom de nos ajudar a esquecer que estávamos no internato, distantes de casa e da família. Eram exigências novas, perguntas novas, desafios mais complexos e estimulantes do que os da convivência diária sob a rígida e monótona rotina do colégio. Sempre nos trazia novos livros, a pretexto de premiar nosso desempenho nas provas mensais. Livros que nos forneciam combustível para fazer voar nossos pensamentos para fora daqueles muros.

Sua dedicação acabou por ter um papel marcante naqueles primórdios da minha vida de estudante. Muito atenta ao desenvolvimento do grupo, foi ela que percebeu minhas afinidades com a matemática. No início do segundo semestre resolveu convencer as freiras a me inscrever num concurso que havia na época, ao estilo das atuais “olimpíadas de matemática”. Tanto insistiu que as freiras acharam que eu talvez tivesse alguma chance e foram levar o assunto para o Provedor. Veio a autorização e assim fui inscrito como representante do internato.

A primeira etapa era regional e envolvia os alunos das escolas de São Cristóvão e bairros vizinhos. Alguém me levou para a escola onde seria feita a prova, num local desconhecido e no meio de pessoas e crianças que nunca tinha visto. A única coisa familiar eram o lápis, o papel e a matéria da prova.

Algumas semanas depois a Irmã Vicência foi me chamar no pátio de recreio dizendo que a Irmã Alegria queria falar comigo. É que tinha chegado a notícia do resultado da tal prova e estava classificado para participar da próxima etapa. Tirara o 1º lugar. Fiquei contente e as freiras também, mas ninguém ficou mais feliz do que a minha professora. As freiras me elogiaram e a Irmã Alegria me deu como prêmio um medalhão de Nossa Senhora das Graças, numa moldura de plástico leitoso, desses que ficam visíveis no escuro.


Na segunda etapa participavam os melhores colocados em todas as regionais do então Distrito Federal. Já não me senti tão deslocado quando tive de ir para um outro local, com outras pessoas, para a última prova. Só que agora tinha medo do resultado. Não fui tão mal: fiquei com o 3º lugar.

Naquela época minha mãe vivia em São Paulo e por isso ela só ficou sabendo do episódio por uma carta que lhe escrevi, todo prosa, embora com termos contidos porque tinha que ser submetida à censura das freiras. Fui encontrar essa carta muitos anos depois, entre as lembranças que minha mãe havia conseguido guardar daqueles anos atribulados.

Algum tempo depois ocorreu o evento de premiação, no teatro João Caetano. Estavam lá a Olímpia e a tia Alice. Ganhei uma coleção de livros do Monteiro Lobato.

Aquela experiência foi uma revelação de algo que eu era capaz de fazer bem e ser por isso reconhecido. Uma revelação que eu devia à minha professora. Dali por diante o meu mundo ganhava uma nova dimensão e o tempo parecia passar mais depressa.

A 1ª página da cartinha enviada para minha mãe comunicando os resultados do concurso

sábado, 24 de julho de 2010

A peste


Durante minha estada no internato poucas lembranças ficaram de doenças que nos tivessem afetado. O único caso foi quando começamos a aparecer com feridas nas pernas, que coçavam muito e não cicatrizavam. Com o passar dos dias mais meninos ficavam contaminados. Passamos um mau bocado com as incomodas feridas que não saravam por mais mercúrio-cromo e pomada “Minâncora” que se aplicasse. Depois de algumas semanas sem resultados as freiras fizeram vir um médico que logo identificou se tratar de impetigo. A medicação, à base de banhos de permanganato foi eficaz e a cura rápida. Foi logo no início do ano e terá vindo incubado em algum de nós no retorno das férias.

O caso de doença mais relevante foi uma infecção de ouvido que um dos meninos contraiu e que as freiras não conseguiram curar com os remédios caseiros. O coitado não reclamava, mas todo muito ficava incomodado pelo visual que resultava. Tiveram que chamar o médico e por alguma razão o garoto teve de ir para casa. Voltou meses depois, curado.

Os resfriados eram relativamente freqüentes, mas sempre sem conseqüências. Em 57, porém, ocorreu um surto de gripe que deixou todo mundo assustado. Era a chamada “gripe asiática”. Eu tinha ouvido de minha mãe as estórias que os tios dela lhe contaram sobre a “gripe espanhola” que havia matado milhares de pessoas no Rio de Janeiro e milhões no mundo todo. Matou até o presidente Rodrigues Alves, já eleito mas que não chegou a tomar posse. Isso no distante ano de 1918. Felizmente a “asiática” era um vírus menos violento e não chegou a cruzar o portão do colégio. Mesmo assim teria vitimado cerca de um milhão de pessoas mundo afora.

Apesar do constante sobe e desce pelas escadas, das brincadeiras no recreio e da arriscada prática de “esquiagem” nas varandas ensaboadas, em dia de faxina, nenhum de nós sofreu qualquer fratura ao longo daqueles anos. Parece que todos tínhamos um bom anjo da guarda.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Férias

O período de férias significava o retorno à vida livre, aos pés descalços e às corridas ladeira abaixo na “Escadinha”. De ir todos os dias à casa do tio Antonio, para buscar o pão e o leite. Ou pedir uma porção de cubos de gelo para refrescar o suco de tamarindo que havíamos catado na Julio Furtado. De ir assistir com os primos o Teatrinho Trol e depois o futebol na tevê da tia Isabel. E, na volta, passar de visita na casa da vovó Olívia para ganhar uma refrescante “Grapette”. De cortar o cabelo à “Príncipe Danilo” na barbearia do seu Artur e esquecer o corte “franjinha” que nos faziam no colégio. De ouvir, à noite, no rádio, as histórias de “Jerônimo, o Herói do Sertão” e as piadas do “Balança-mas-não-cai”. De soltar pipa e de ir com o Afonso pelos terrenos baldios colocar armadilhas e arames com visgo para pegar biquinho-de-lacre. De disputar o campeonato carioca e até a copa do mundo jogando botão com meu irmão e meus primos. De jogar bola com os vizinhos da rua. De brincar de amarelinha e de pique com as meninas.

Logo vinha o Natal. Sempre arranjávamos uma árvore pequena porque dos enfeites que tínhamos trazido de Portugal poucos haviam se salvado. Completávamos a ornamentação com jilós embrulhados em papel prateado. Tínhamos também um pequeno presépio de papelão para colocar no pé da árvore. Estava pronto o cenário para esperar o Papai Noel. No dia 24 minha mãe nos fazia colocar os sapatos na janela, ainda seguindo a tradição portuguesa, e de manhã lá encontrávamos qualquer coisa que ela havia conseguido comprar. Depois íamos fazer a visita ao tio Antonio levando as rabanadas que minha mãe era especialista em fazer. Lá, então, sempre ganhávamos brinquedos de verdade.

Depois do Natal vinha a temporada das visitas. Ir à casa do tio Damião em Marechal Hermes era um dos programas que minha mãe fazia questão de fazer nas férias, quando podíamos ir todos juntos. Ele era um dos muitos irmãos do pai dela e tinha vindo há muitos anos para o Brasil. Arranjou casamento e por cá se deixou ficar. Mais tarde adotaram um menino, o Paulinho. Moravam numa casinha simples cedida pelo patrão e tentavam reproduzir, no subúrbio do Rio, o estilo de vida da sua aldeia em Portugal. Naquele tempo ainda era possível. Tinha um par de vacas que lhe ajudavam a preparar um pequeno espaço de terra onde plantava alguma coisa e, principalmente, para puxar uma carroça com que fazia transportes de materiais para as obras que iam aos poucos se multiplicando nas vizinhanças. Eu gostava de lá ir, mais que tudo, para ver e colocar as mãos nos animais e relembrar os passeios em carro de bois quando ia visitar os parentes no interior de Portugal.

Um outro fim de semana era para ver a Cléa, prima da minha mãe. Ás vezes íamos na casa deles, no Campo dos Afonsos, mas gostávamos mesmo era de ir até a Praça Saens Peña, na Tijuca onde o marido dela trabalhava com um carrinho de pipocas. Era um ponto muito bom porque ali havia quatro ou cinco cinemas e o movimento era grande.

Por fim, chegava o carnaval. Embora minha mãe não fosse simpatizante de Momo fazia questão de dar uma espiadela no que acontecia pela cidade. No domingo de carnaval íamos todos dar uma volta de bonde até o centro, apreciando os pequenos blocos que se improvisavam aqui e ali ao longo dos bairros por onde íamos passando. No centro sempre havia mais agitação, blocos maiores, bandinhas “fuzarcas” repetindo as marchinhas famosas da época, mas tudo ainda relativamente calmo. Quase sempre São Pedro mandava um banho de água fria para refrescar o chão escaldante e as cabeças mais entusiasmadas pelos efeitos dos lança-perfumes, que naquela altura ainda eram utilizados sem restrições por foliões de qualquer idade.
O fim do carnaval prenunciava o retorno ao colégio.

terça-feira, 25 de maio de 2010

O telefone não fala!



Logo que a capela do colégio foi inaugurada alguns arranjos tiveram de ser feitos. É que todas as freiras queriam participar das orações do final do dia naquele novo espaço. O órgão já estava instalado no centro do coro e a Irmã Alegria e a Irmã Vicência se revezavam para tocá-lo. O problema é que a secretaria ficava a descoberto. Se o telefone ou a campainha da rua tocasse ninguém ficaria sabendo. A solução foi escalar um aluno para ficar de plantão enquanto todos iam para a capela. Um belo dia coube-me exercer essa função.

Acho que até aquela data nunca tinha feito a experiência de falar ao telefone. Claro que já conhecia o aparelho, mas só de vista. Tinha um na casa da vovó Olívia, no Grajaú, que era muito usado pela família. Eu até já sabia o seu número de cor, de tanto ouvi-la repetir no seu sotaque minhoto amenizado pelos quase quarenta anos de Brasil: « Aqui é o tresóito-quatruóito-nobecinco ». Todo mundo ia lá, ouvia, falava, parecia muito fácil. O do colégio era igual. Portanto eu não tinha o menor motivo para reclamar da convocação. Nem achei que era necessário dar a conhecer minha falta de experiência prática. Ia perder as orações sim, mas poderiam ser adiadas para outra ocasião. Afinal, seria divertido ficar ali, com um tempo extra para fazer a imaginação voar.

Pelo que eu já sabia era raro alguém ligar para o colégio. As famílias dos internos não tinham permissão para fazê-lo a não ser em circunstâncias muito graves. Mais raro ainda era soar a campainha do portão. Assim, no meu primeiro dia de plantão tudo ia muito bem, e só se ouvia o ruído abafado das orações na capela. Até que o inesperado aconteceu: o telefone tocou. « Que sorte! » pensei, « Justo no meu primeiro dia de plantão! » E lá fui às carreiras, tropeçando em tudo que havia pela frente, ao encontro do aparelho. Respirei fundo e caprichei para dizer « Alô!». Não podia sair fraquinho, nem gritado, nem tremido. Tinha que sair natural, da mesma forma que todo mundo fazia... O telefone continuou em silêncio... « Alô » repeti, com ansiedade. O mesmo silêncio... Foi aí que descobri não ter certeza de qual dos lados do aparelho era para escutar e qual para falar. Fácil, era só inverter a posição. Não funcionou, o telefone continuava mudo.

Por mais que eu alternasse as posições não conseguia escutar nada mesmo. Entrei em pânico, sem saber o que fazer... Meu dia de estréia no mundo da tecnologia das comunicações estava se transformando num total fiasco.

Foi então que, em desespero, resolvi dizer para aquela coisa que esperasse e, em seguida sai correndo chamar a freira. Ela ia me perguntar quem era e eu tinha que dizer a verdade: que não sabia. Mas como não tinha outro jeito, antecipando o vexame, fui assim mesmo e disse-lhe que o aparelho devia estar com problemas por que não falava. Acho que ela não acreditou pois voltou comigo “elogiando” o tempo todo a minha incompetência. Ela pegou o telefone como sempre fazia e falou e ouviu o que se dizia do outro lado. Fiquei vexado, claro, pela bronca e principalmente por não ter atinado com o que efetivamente tinha deixado de funcionar.

Depois de algum tempo tive uma nova oportunidade. Nesse meio tempo eu já tinha revisado todas as possibilidades de solução caso o problema se repetisse. Mas era improvável. Por que só comigo? Mas aconteceu! Novo apuro, novo vexame... Mistério.

Os companheiros ficaram sabendo da história e engrossaram a chacota por causa das minhas orelhas de abano, grandes mas incapazes de ouvir ao telefone.

O fato é que quando a coisa se repetiu pela segunda vez as freiras quiseram tirar a coisa a limpo. Experimente assim, faça desse outro jeito... Até que... Heureca! Nada de errado com o aparelho, era mesmo o meu ouvido que não funcionava!

Como eu era destro era natural que pegasse o aparelho com a mão direita e o levasse ao ouvido direito, que não funcionava. O do lado esquerdo era normal, ouvia perfeitamente, e por isso, no dia-a-dia, nem eu nem ninguém se dava conta do problema. Afinal, quem iria imaginar que aquele menino de orelhas grandes tinha problemas de audição.

O caso ficou por isso mesmo. Eu não tinha nenhuma infecção ou problema visível que exigisse cuidados médicos de urgência. Talvez fosse problema congênito. Só anos mais tarde é que tive condições de consultar um especialista. Pensei que o problema tivesse conserto. Através de um exame de audiometria se constatou que o nervo auditivo estava completamente inoperante. “Você teve sorte por só ter sido afetado num dos ouvidos” disse-me o médico. “Não posso garantir, mas é muito provável que tenha sido uma conseqüência do sarampo” completou.

De fato eu havia contraído a doença logo nos primeiros dias da minha chegada no Brasil. Naquela época ainda não existia a vacina, só descoberta em 1963, e por isso o sarampo costumava deixar seqüelas.

Com o tempo me acostumei com a situação. A adaptação exigiu aprender um pouco de leitura labial e a posicionar-me sempre para que meus interlocutores ficassem do meu lado esquerdo, onde eu pudesse ouvi-los direito. Só não consegui aprender a dançar. Era impossível manter a conversa com o meu par falando no meu ouvido direito. E se mantinha a conversa não acertava o passo!

terça-feira, 18 de maio de 2010

Em tempo de eleições: o cearense Juarez e o mineiro JK



No ano de 54 o presidente Getulio Vargas havia cometido suicídio. Nunca me esqueci daquela data porque era também o do aniversário de minha mãe: 24 de agosto.

Mesmo sem ter idade para entender a importância daquele episódio e apesar do isolamento do internato, dava para sentir que o ambiente não estava nada tranqüilo. Víamos as expressões preocupadas dos adultos à nossa volta e ouvíamos os comentários que as freiras faziam entre si. Muito barulho havia ocorrido nos meses que antecederam o fim do governo Vargas, ao compasso das acusações que Lacerda fazia na imprensa. Estávamos na capital do país. A sede do governo e o centro daquela agitação política não ficavam a mais de uma dezena de quilômetros de onde eu estava.

A política voltou a esquentar no ano seguinte por conta do processo eleitoral que escolheria o sucessor de Vargas. Um dos concorrentes era o Juarez Távora, um militar cearense que havia sido um dos tenentes de 1922, do episódio da revolta do Forte de Copacabana. E foi por causa desse ilustre cearense que nós passamos a ouvir falar um pouco mais de política ali dentro. É que Távora tinha na Irmã Vicência, sua conterrânea, uma defensora fiel e propagandista dedicada. Elogiava principalmente a retidão de princípios e qualidade moral que ela achava serem predicados próprios dos militares.

A opção por um militar tinha as suas razões naquela altura. A Grande Guerra era ainda um episódio recente e dera aos homens de farda ampla presença política e prestígio em todo o mundo, pelo menos do lado dos vencedores. No Brasil, pouco antes da candidatura de Juarez, Gaspar Dutra, outro general, havia sido eleito presidente pelo voto popular. Anos mais tarde, na eleição para escolher o sucessor de JK, o general Lott também decidiu enfrentar o desafio das urnas, perdendo para Jânio.

Juarez, ainda segundo a Irmã Vicência, era o homem certo, por ser cearense, para por fim ao sofrimento do povo nordestino com o flagelo das secas.

Apesar da sua torcida e das suas muitas orações Juarez acabou perdendo, embora por pequena margem, para o mineiro Juscelino, conterrâneo da Irmã Luiza, que evitou comemorar para não alimentar polêmicas.

Pouco antes da posse de JK nova confusão, envolvendo Café Filho, vice de Getúlio, Carlos Luz, que era o presidente do Senado e seu vice, Nereu Ramos, além de Lacerda e os militares pelo meio da história. Apesar de todo o falatório sobre o assunto eu não fazia a menor idéia do que se estava passando. Só via que os adultos estavam preocupados com a instabilidade “provocada pelos políticos” e que almejavam novamente um “ato patriótico” dos militares para recolocar o país nos eixos.

A idéia que então eu fazia da política é de que se tratava apenas um jogo entre políticos, supervisionado pelos militares.

Às vezes eu ouvia algum adulto falar contra o comunismo sem atinar com o significado daquilo. Sabia que era coisa dos russos e que todo o comunista era ateu. Aprendera, portanto, que todos os católicos deveriam ser contra o comunismo. Seria mais uma questão religiosa. Mas no internato não se falava muito do assunto. A certa altura o assunto começou a chover literalmente no nosso pátio de recreio. É que alguns teco-tecos começaram a fazer freqüentes sobrevôos sobre o bairro lançando panfletos com desenhos e mensagens anticomunistas. As freiras não impediam que pegássemos aqueles papéis, nem faziam comentários sobre as suas mensagens. Logo se transformavam em matéria-prima para aviõezinhos. Lembro, entretanto, que os desenhos procuravam passar a imagem de que os comunistas eram pessoas brutas e que queriam impor alguma coisa à força de ameaças e prisões. A figura predominante dos desenhos era uma caricatura de Nikita Krushev, que havia sucedido a Stalin após a morte deste em 1953. Não consegui descobrir o que teria motivado aquela propaganda. Talvez, olhando para os registros da história da época, tenha se relacionado com algum movimento político interno contrário à legalização do partido comunista que JK havia negociado em campanha para conquistar mais apoios à sua candidatura.



terça-feira, 11 de maio de 2010

A capela



No ano de 55 a capela do Educandário ficou pronta. Dedicada a Nossa Senhora de Fátima foi inaugurada festivamente pelo monsenhor Henrique de Magalhães que era então pároco da Igreja da Candelária. A capela era muito simples e despojada, com as paredes pintadas numa cor clara, em tom levemente azulado. No átrio, alinhavam-se duas dúzias de bancos de madeira, divididos por um corredor central. A parte superior era formada por um balcão em forma de « U » e se ligava ao piso inferior por uma escada em espiral num dos cantos ao fundo da capela. Nesse balcão foi instalado um pequeno órgão onde a Irmã Vicência demonstrava sua habilidade no manejo do duplo teclado, registros e pedais para acompanhar os cânticos que ensaiávamos todas as tardes, depois do “crieléison”, - como chamávamos a ladainha do “Kyrie”. Naquela altura ainda se rezava quase tudo em latim. O pequeno altar ficava encimado por uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, ladeada por dois anjos que, com expressão fixada no horizonte distante e como se não lhes pesasse nada, sustentavam duas estruturas de luminárias de globos.

Apesar de sua arquitetura simples a nova capela passou a ser motivo de orgulho para as freiras. É que a partir dali teriam um espaço mais adequado para fazer as orações e para a educação religiosa dos seus pupilos. Nós, as crianças, já ficamos menos contentes, pois deixaríamos de fazer o passeio matinal dos domingos para assistir a missa na Igreja de São Cristóvão e dar uma espiadela no mundo exterior. Era um passeio curto, meia dúzia de quarteirões, mas era sempre uma diversão. Íamos na velha jardineira conduzida pelo seu Luciano. Como os outros membros da irmandade da Candelária, aparecia sempre bem vestido, de terno e gravata, pequeno bigode e cabelos pretos penteados com “gumex”. Quando dirigia a jardineira tirava o paletó e ostentava uma camisa sempre muito branca. Era sempre pontual e atencioso.

O contato com outras pessoas, entretanto, não acabou totalmente: aos domingos as freiras permitiam que os vizinhos da rua assistissem à nossa missa. Ficavam ao fundo e não havia possibilidade de contato.


Pouco antes da inauguração da capela do colégio monsenhor Magalhães tratou de formar alguns coroinhas. Fomos cinco os escolhidos: o Augusto, o Luís, o Rogério, o Marcos e eu. O vai-e-vem do missal, os toques da campainha, a água e o vinho das galhetas, todo o ritual tinha que estar bem decorado para não quebrar a seqüência da cerimônia. E assim também as falas, tudo em latim, que a gente de tanto repetir ia pouco a pouco descobrindo as semelhanças com o português.

Com o início das missas na capela as freiras organizaram uma espécie de revezamento entre nós, dois a cada domingo. Nos dias de festas religiosas, como na Páscoa, atuávamos todos. Às vezes éramos convocados para participar de alguma missa festiva na Igreja da Candelária.

Eu era muito tímido e aquela exposição no altar não combinava com o meu jeito de ser. Mas as freiras tanto nos elogiavam e o monsenhor também que acabei me acostumando.

Apesar de a capela ter limitado nossos passeios ainda assim tivemos algumas oportunidades de sair para participar de eventos religiosos. Um deles foi o Congresso Eucarístico Internacional, que ocorreu em meados de 1955 sob a responsabilidade de D. Hélder Câmara. As cerimônias davam-se no aterro da Glória, no local onde mais tarde foi construído o Monumento dos Pracinhas. Na época era apenas uma área enorme em terra batida onde tinham sido montados um altar mor, numa parte alta, e centenas de bancos de madeira para atender à multidão.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Primeira comunhão

O internato não era um seminário, mas era parecido. Mantido por uma tradicional instituição católica e administrado por freiras era natural que a religião tivesse presença marcante na nossa vida diária. Rezávamos antes e depois de começar cada atividade. A primeira oração era feita ainda ao lado da cama, logo que nos despertavam. A última, antes de nos deitarmos. Isso sem contar as orações individuais que cada um fazia, pelos seus familiares, ou na esperança de se livrar de um castigo, ou por qualquer outro motivo que achássemos que só Deus, os Santos ou o nosso Anjo da Guarda nos pudessem valer.

Logo no meu primeiro ano de Educandário prepararam-me para fazer a primeira comunhão. A mim e a todos os outros na mesma faixa de idade. Ao longo do segundo semestre as freiras se revezavam no ensino do catecismo. A cerimônia aconteceu no final do ano, no dia 8 de dezembro, dia dedicado à Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Tratava-se de um dia especial porque naquele ano completava-se o centenário da proclamação, feita pelo papa Pio IX, do dogma da Imaculada Concepção. A missa foi realizada na velha igrejinha de São Cristóvão, na Praça Padre Seve, porque a capela do colégio ainda não estava pronta. Todos estávamos a caráter, vestidos de branco, vela com laço de cetim em uma das mãos e o livro de orações na outra. Não tínhamos idéia de quanto nossas famílias tinham gastado para adquirir aqueles paramentos todos, mas isso não importava naquele momento. Desfilamos cheios de importância e orgulho pelo passo que estávamos dando. A missa, por ser um evento especial, era mais comprida do que o normal, mas pareceu-nos ainda mais longa porque estávamos todos em jejum. Ao final ganhamos um café da manhã como nunca havíamos tido antes, com chocolate, bolos, biscoitos e a presença da família: uma verdadeira festa. A festa maior, entretanto, viria logo depois: não tínhamos que voltar de jardineira para o colégio; estávamos livres para ir para casa, em férias.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Passeios e festas

Os passeios externos eram raros. Depois que se construiu a capela do colégio já quase não tínhamos oportunidade de sair. Eventualmente íamos assistir uma missa especial na Candelária. Fomos uma vez a um hospital para doentes de lepra que pertencia à Irmandade. Passeio mesmo, foi quando nos levaram para passar um dia inteiro em uma chácara, nos arredores do Rio de Janeiro. Provavelmente ficava em Nova Iguaçu, então um dos maiores centros de produção de laranjas do Brasil. A chácara deveria pertencer a algum dos membros da irmandade da Candelária. Havia espaços enormes para correr e brincar e um mundo de pés de laranjeira, todos carregados de frutas maduras. Voltamos embriagados de tanto chupar laranja e cansados de tanto correr.

Com o passar do tempo o número de alunos foi aumentando e a velha "jardineira" do seu Luciano já não comportava todo mundo.

As festas religiosas da Páscoa, São João e de Cosme e Damião eram sempre comemoradas no internato. Na Páscoa, depois da missa, ganhávamos os tradicionais ovos de chocolate que tínhamos de procurar pelo jardim logo depois da missa. O São João era mais divertido, pois tínhamos até queima de fogos, com direito a lançar, da varanda, busca-pés, estrelinhas, espirais e até soltar balão “japonês”. Era época de comer melado com farinha, como sobremesa. Mas o melhor das guloseimas ficava para a festa de Cosme e Damião quando algumas pessoas, ou da Irmandade ou mesmo das vizinhanças do internato, levavam algumas caixas de doces em pagamento de promessas feitas aos santos gêmeos, protetores das crianças. Tínhamos sobremesa diferente por vários dias.

A melhor festa de todas era, naturalmente, a festa de fim de ano. Porque logo que terminava íamos para casa, em férias. Era sempre uma festa solene, realizada num domingo, com a presença dos familiares, professoras e dos membros da Irmandade. Faziam entrega de medalhas de honra ao mérito aos melhores alunos. Davam também alguns prêmios em dinheiro que eram depositados numa conta da Caixa Econômica , mas só disponíveis quando atingíssemos a maioridade.

Essas festas ocorriam também no Departamento Feminino, onde estava minha irmã. Como eram muitas alunas, cerca de uma centena, a festa era maior. Havia inclusive uma exposição-feira onde eram colocados à venda os trabalhos artesanais que as alunas faziam durante o ano. Geralmente eram trabalhos de costura, bordados, etc. Isso porque as meninas recebiam aulas de costura e outras artes manuais, já que o colégio não oferecia o curso secundário. Minha mãe, a tia Olímpia e a tia Alice sempre procuravam comprar alguma coisa feita por minha irmã, como lembrança. Ela fazia sempre coisas muito bonitas e delicadas. Acompanhei várias vezes minha mãe e a Olímpia naquelas exposições. Enquanto desfilávamos entre as mesas onde estavam os trabalhos estavam expostos, minha mãe lamentava-se de não poder comprar todos os que a filha fizera. A tia Olímpia era mais incisiva e dizia que era uma vergonha colocarem à venda, para os próprios parentes, os trabalhos das meninas. Minha mãe contemporizava dizendo que os preços significavam que o trabalho da “sua” pequena tinha valor e que, no futuro, poderia ganhar algum dinheiro com aquelas artes e habilidades.

A festa das meninas tinha direito até mesmo a reportagem na “Voz de Portugal” um dos jornais da comunidade portuguesa. Uma vez chegaram mesmo a publicar uma foto no momento em que minha irmã recebia sua premiação. Como não conseguimos guardar o jornal, alguns anos mais tarde fui à redação e pedi a cópia daquela foto. Acharam graça e com toda a boa vontade mostraram-me um armário cheio de caixas de papelão repletas de fotos. Talvez tenham pensado que eu iria desistir e ir embora. Depois de algumas horas tive a sorte de encontrar o que procurava. Sai de lá todo orgulhoso e contente pelo achado. Foi minha primeira experiência em recuperar um pedacinho da história da família.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Na hora do recreio




Eram os recreios mais silenciosos de que eu participei. Havia, sim, em algum momento, barulho e gritos, mas não dava a impressão de que ali estivessem quase trinta crianças. Com exceção do futebol e de alguma outra brincadeira mais agitada, a maior parte dos nossos jogos era bastante silenciosa. Formávamos pequenos grupos e cada um deles se envolvia em uma atividade diferente. Além disso as freiras estavam sempre por perto, vigilantes, para impedir excessos.

O grupo maior era o do futebol, nosso passatempo preferido. Até mesmo a Irmã Luiza vez por outra participava. O problema é que as bolas eram de borracha e quicavam muito. Eram também pouco resistentes aos chutes daqueles pés inábeis e não agüentavam duas partidas seguidas. Às vezes tínhamos de improvisar com bolas de papel, mas já ficava sem graça porque não quicavam. Sem bola, o jeito era apelar para o “pique”, “pega-bandeira”, “lenço-atrás” e outros jogos da época.

Os grupos dos mais tranqüilos se dividiam entre as bolas de gude, o jogo das “pedrinhas” ou “cinco-marias”, do ferrinho e outros. Eram brinquedos simples, que nós mesmos podíamos fazer. Muito comuns também eram as pipas “ratinho”, com papel de embrulho ou de jornal, mais raramente uma folha de caderno, armada com varetas de piaçava, tudo colado com restos de arroz cozido. Alguns tinham álbuns de figurinhas. As mais difíceis entravam no mercado de trocas e as mais comuns iam para o jogo do “bafo-bafo”.

A certa altura ganhamos um conjunto de balanço e gangorras. Foi instalado no pátio externo. No começo geravam muita disputa porque todo mundo queria brincar neles.

Pátio de recreio
A foto pertence ao acervo da Candelária; é provavelmente dos anos 70,
já com o piso concretado e com o balanço recolocado ao fundo.
A hora do recreio era a hora também de colocar as conversas em dia, de comentar as provas, uma notícia de casa, o último filme do seu Sampaio, ou simplesmente contar casos e verbalizar nossos sonhos e fantasias de crianças. Havia naquele grupo um menino que tinha especial talento para contar histórias. Era o « Bolacha », um garoto gorducho e de grandes bochechas, um ano mais novo do que eu. Quando estava inspirado era capaz de manter a atenção de muitos de nós ouvindo os seus casos mirabolantes.

Nos finais de semana passávamos muitas horas também na sala de recreação. Era a ocasião para exercitarmos a leitura ou a habilidade com os joguinhos de mesa, os tradicionais dominós, pega-varetas, ludos e damas. Havia, também, uns brinquedos de armar, feitos em plástico, precursores dos atuais “lego”. Um deles era o “lig-lig”, bastante maleável, que dava para fazer muitas coisas, inclusive bolas. O outro era feito de pinos redondos, coloridos, com encaixes. Havia ainda o tradicional “Pequeno Engenheiro”, para montar casas torres e castelos, mas o mais interessante era um jogo de armar, com pequenas peças de metal furadinhas, ligadas por meio de parafusos e porcas. Chamava-se Maq-Bras, ou algo parecido, e era uma espécie de “lig-lig” de luxo. Eu olhava de longe, maravilhado com as coisas que podiam ser feitas com todas aquelas peças: torres, guindastes, caminhões, quase tudo... Não sei que fim levou. Quando fiquei maior o brinquedo não existia mais.

As freiras participavam também. Elas gostavam muito de jogar damas. Tinham um tabuleiro grande, com peças de madeira, e jogavam entre si. É um jogo bem simples e logo aprendi as regras. Fui aos poucos ganhando gosto e traquejo pela coisa e depois de algum tempo não tinha menino que me vencesse. Ia ver o jogo das freiras. Um dia me convidaram para jogar com elas. Ganhei da irmã Luiza e já todo empolgado fui enfrentar a irmã Vicência. Perdi desastradamente. Mas pouco a pouco aprendi os truques delas e a disputa passou a ser mais parelha.


sexta-feira, 16 de abril de 2010

Medos




Enquanto somos crianças o medo é uma coisa mágica que muitas vezes se manifesta de forma involuntária e inesperada em meio aos nossos sonhos. A solução é igualmente mágica: correr para a cama dos pais, onde os monstros e fantasmas estão proibidos de entrar.

No internato esses medos tinham que ser resolvidos por conta de cada um. Uns rezavam, outros simplesmente ficavam de olhos abertos até que o sono os fechasse outra vez. Outros faziam xixi na cama. Algumas vezes, instintivamente, alguém ia parar na cama de outro menino.

As noites chuvosas do verão carioca eram difíceis de enfrentar. Trovoadas intermináveis, ventanias que lançavam as chuvas sobre as vidraças das janelas do dormitório e relâmpagos que pareciam incendiar tudo em volta. Nessas ocasiões Irmã Luiza, depois de apagar as luzes, gastava um pouco mais de tempo em seu passeio por entre as fileiras de camas do dormitório para acalmar os mais assustados e dar tempo a que todos pegassem no sono. Quase sempre, nessas ocasiões, ele custava a chegar e a gente tinha que torcer para a freira ficar mais um pouquinho, dar mais uma ou duas voltas. Às vezes ela pensava que todos já estavam dormindo e ia embora para o seu quarto no andar de baixo. Jamais alguém teve a coragem de pedir para ela ficar mais um pouquinho. Seria o fim da fama do valente!

Houve um desses verões em que surgiram entre nós, as crianças, umas conversas sobre o capeta. Ninguém sabia como nem porque o assunto tinha se instalado entre nós. Durante o dia o tema até que era divertido e cada um procurava inventar uma história diferente e mais aterrorizante. Uma delas era a de que “ele” costumava aparecer na esteira dos relâmpagos e que se transformava em uma bola de fogo para levar as suas vítimas para as profundezas do inferno. Foi o bastante para muitos de nós passarmos horas de insônia. De manhã o resultado aparecia: algumas camas desfeitas e colchões tendo que ser carregados para secar na varanda. E nem sempre eram os mais pequenos.



terça-feira, 6 de abril de 2010

Leituras

Nossa biblioteca consistia de uma pequena pilha de revistas na sala de recreação. Nos dias de visitas alguém sempre trazia um novo exemplar. Raramente era novo mesmo, mas o que importava é que fosse diferente dos que já tínhamos. Vez por a Candelária enviava um pacote com novas revistas para recompor o estoque. Geralmente eram da coleção “Série Sagrada” e “Edições Maravilhosas”. Ambas eram em quadrinhos, muito bem desenhados. A primeira reproduzia as histórias dos santos e episódios religiosos. A segunda aproveitava como tema alguns dos mais famosos contos de escritores brasileiros. Eu gostava daquelas histórias e me prendia principalmente nos detalhes dos desenhos, até porque eram realmente muito bem feitos. Também tinhamos « Príncipe Valente » e a tradicional “Tico-Tico” onde estrelavam os engraçados personagens Reco-Reco, Bolão e Azeitona, criados por Luis Sá. Eram também muito disputadas as do “Pato Donald”, de Walt Disney.


Quase todas essas revistas eram produzidas ali mesmo em São Cristóvão, bem pertinho, pela Editora Brasil América. O « Pato Donald » saía pela Editora Abril, instalada no início dos anos 50.

Ganhei meus primeiros livros no internato das mãos da professora Maria Luíza, quando estava na quarta série. Ela os dava como estímulo ao estudo. Valiam ouro pelo que então significavam : davam asas ao pensamento. Eram livros sobre a história e sobre a geografia do Brasil.

Um dos autores preferidos da professora era o hoje desconhecido Francisco Marins. Ganhei “Território de Bravos”, a história da conquista do Acre pelos brasileiros comandados por Plácido de Castro que avançaram mata adentro na Amazônia para extração do látex da seringueira; aventura que resultou na incorporação do Acre ao Brasil. Do mesmo autor ganhei também “Expedição aos Martírios” que narra a história de um grupo de aventureiros que parte pelo interior do país em busca das minas perdidas.

Marins era então um jovem escritor, com pouco mais de trinta anos, e viria a produzir muitos outros textos, muitos dos quais se tornariam clássicos da literatura juvenil brasileira. “Os Segredos do Taquara-Póca”, “O Coleira Preta”, “Nas Terras do Rei Café”, dentre outros, fariam parte, décadas mais tarde, da biblioteca dos meus filhos.

Outro autor que li através dos livros da professora Maria Luiza foi Viriato Corrêa: “Meu Torrão”, “A Bandeira das Esmeraldas” e “História do Brasil para Crianças”, eram as melhores obras sobre história do Brasil para a garotada.


Além destes eu me encantava com as histórias de um outro autor, do qual também hoje pouco se fala. Era Ariosto Espinheira, autor de uma série chamada “Viagens Através do Brasil”. Ganhei o volume que falava do Rio São Francisco, das regiões que atravessava e das populações que viviam nas suas margens. Quantas vezes dormi sonhando com imaginárias viagens ao longo daquele tão decantado rio. Quando finalmente conheci o “velho Chico”, uns trinta anos depois, ele já não era mais o mesmo das narrativas que eu havia lido. Tinha sido vítima do progresso e do descuido.

Esses autores e seus livros foram, juntamente com Monteiro Lobato, os responsáveis por boa parte dos conceitos de cidadania que aprendíamos na escola. De leitura agradável e atraente, aumentavam nossa curiosidade pela nossa história, cultura, geografia e economia. Menos conhecidos, mas não menos importantes, os ilustradores desses livros agregavam um valor enorme ao texto escrito. Meus olhos ficavam atraídos por muito tempo numa mesma gravura tentando encontrar detalhes e outras histórias que o autor esquecera de contar...  

terça-feira, 30 de março de 2010

O cinema do senhor Sampaio



As transmissões de televisão no Rio de Janeiro já estavam no ar desde 1951 trazidas pelo Chateaubriand, o rei da mídia brasileira na época. Entretanto, os aparelhos de recepção ainda eram objetos de luxo e pouco acessíveis à grande maioria das famílias. O rádio era, então, o principal meio de comunicação, presente em quase todos os lares, ocupando um lugar de destaque na sala, em suas bem elaboradas caixas de madeira ou, os mais modernos, de baquelite, uma versão antiga dos plásticos. Lá dentro, um presépio de válvulas de formatos variados que puxavam pela imaginação cientifica das crianças. Os radinhos de pilha ainda estavam para chegar.

Minha mãe havia trazido um rádio de Portugal, marca GE, que pegava muito bem as transmissões internacionais pelas ondas curtas. Um dia sofreu uma pane qualquer e um vizinho prestimoso levou-o para ser consertado por um amigo. Nunca mais voltou do conserto. Mais tarde conseguimos outro aparelho, de segunda mão, não tão bonito nem tão bom de ondas curtas, mas que tinha lá dentro os mesmos personagens das novelas e do “balança-mas-não-cai”.

O rádio também estava presente no internato. Ficava num cantinho da “sala de comando”. As freiras ligavam o aparelho todos os dias para que ouvíssemos, no final da tarde, as "Histórias do Tio Janjão", um programa para crianças. Ou para ouvirmos as prédicas religiosas do Monsenhor Henrique Magalhães, o capelão da Candelária. As novelas radiofônicas embora fizessem muito sucesso não chegavam aos ouvidos dos internos. Ficava só para o período de férias, em casa. Em compensação, uma vez por mês, tínhamos sessão de cinema no colégio. Era um dia de festa.

A sessão ocorria no sábado pela manhã, sempre depois dos trabalhos de faxina e antes do almoço. Logo cedo, pela manhã, os mais afoitos não se continham e iam perguntar para as freiras se elas já sabiam qual seria o filme do dia. Lá pelo meio da manhã todos esperávamos atentos ao toque da campainha do portão que anunciava a chegada do senhor Sampaio. Ele fazia parte da Irmandade e era o responsável por trazer o equipamento e passar os filmes para nós.

Os preparativos faziam parte da festa. As freiras orientavam a colocação de cobertores nas janelas altas da sala para escurecer o ambiente. Enquanto isso o senhor Sampaio ia preparando o equipamento, conferindo os rolos da fita em suas tradicionais caixas redondas de metal. Depois começava a montar o primeiro rolo sobre o braço de suporte e a passar e repassar a fita de celulóide sobre aquele labirinto mecânico por trás da lente de projeção, até que ela saia na outra extremidade e era presa no carretel vazio.

Eu achava que era um privilégio poder ver tudo aquilo tão de perto. Nossos olhos ficavam como que hipnotizados com aquele ritual, esperando com a respiração contida o momento do teste, em que ele colocava a máquina para funcionar e os fotogramas começavam a deslizar matraqueando por entre as engrenagens. Às vezes algo não saía bem e tinha que recomeçar tudo de novo. Talvez o senhor Sampaio fizesse de propósito, para criar mais suspense ou espicaçar nossa curiosidade ou, ainda, para alertar nossa responsabilidade futura sobre o domínio das máquinas. Nem achávamos ruim quando já no meio do filme a fita se quebrava e a sessão era interrompida. Acendiasse a luz, esfregávamos os olhos e voltávamos a cabeça para apreciá-lo emendar as pontas e a recolocação da fita nas engrenagens até que elas voltassem a correr as luzes se apagassem novamente.

O senhor Sampaio fazia tudo com enorme paciência e com visível prazer enquanto fumava e conversava distraidamente com as freiras que cuidavam para que não chegássemos muito perto.

Nós admirávamos aquele personagem. Tanto por ser o responsável por aquela caixa mágica que nos trazia momentos de fantasia, mas também por ser uma figura de homem afável, quase paterna, e que nos tratava a todos com atenção. Sua imagem nunca me saiu da memória. Era um homem pequeno e magro, sempre com seu cigarro na boca e com o chapéu a esconder-lhe os raros fios de cabelo que ainda lhe ficavam nas têmporas. Apesar do calor carioca, vestia-se sempre de modo formal, com paletó, camisa branca, gravata e calças com suspensório, figurino típico dos anos 50. Sistematicamente, sempre que chegava pendurava com muito cuidado o paletó e o chapéu num cabide da parede.

A sessão de cinema era tão importante que ficar proibido de assistir a uma delas era, depois de ficar sem visita, o maior de todos os castigos. Nós éramos razoavelmente bem comportados, mas as freiras eram rígidas e não deixavam passar qualquer oportunidade para fazer lembrar-nos as regras. Vez por outra alguém ficava “premiado”. Quando isso acontecia o senhor Sampaio procurava interceder em favor do punido. Fazia-o sempre, mas acho que nunca conseguiu mudar a decisão das freiras. O castigo consistia em  ficar sentado num banquinho baixo colocado atrás da “platéia” e de costas para a tela. As freiras, por sua vez, ficavam no fundo da sala, assistindo ao filme e vigiando os punidos.

Foi nessas sessões de cinema que conheci pela primeira vez as aventuras de Roy Rogers, do Zorro e do Durango Kid, alguns dos caubóis da época cujas aventuras, depois, viravam assunto de nossas conversas e brincadeiras no recreio e povoavam a nossa imaginação na hora de dormir. Quem sabe, um dia, conseguíssemos uma máscara negra e um cavalo branco para tentar... fugir do colégio.

Eu gostava das comédias com Charles Chaplin. Passavam também muitos filmes com a dupla Gordo e o Magro e com os Três Patetas. Eles eram engraçados, mas eu não entendia a razão de tanta pancadaria como motivo para fazer rir.

Vez por outra aparecia algum filme de cunho religioso. Um deles foi “Andrócles e o Leão”, de 1952. A história se passava no tempo em que os cristãos eram atirados às feras no Coliseu para diversão dos romanos. Achei aquilo uma coisa terrível e a cena dos leões no Coliseu acabou se incorporando ao meu acervo de pesadelos de criança.

Havia fitas dramáticas, também. Um dos poucos que me ficaram na memória era uma estória em que um dos personagens, um homem casado e pai de quatro ou cinco filhos, sofre um assalto e é agredido pelos bandidos. Em conseqüência dos golpes que recebe passa a sofrer de amnésia e não consegue reencontrar o caminho de casa. Os filhos crescem desconhecendo o destino do pai e mantendo por muito tempo a expectativa de que ele um dia retornasse. O título se perdeu mas ficou o registro do enredo. A ausência da figura paterna era um drama que certamente nos tocava a quase todos. [Recentemente, Henrique, um dos companheiros daquela época, que tem ótima memória, me contou que se tratava de "Seu único pecado", com o ator Akim Tamiroff].

terça-feira, 23 de março de 2010

Dia de visitas



As visitas ocorriam no primeiro domingo de cada mês, sempre das 2 às 4 horas da tarde. Depois do almoço íamos para o pátio até pouco antes das duas horas quando subíamos para a sala de recreação. Naqueles dias, porém, as brincadeiras não tinham qualquer graça ou interesse. Serviam apenas para disfarçar a nossa ansiedade por ver alguém da família e ter noticias de casa.

O toque da campainha da rua punha em funcionamento nossos cronômetros mentais. Ficávamos contando os segundos com os olhos fixos no trinco da porta da sala. Quando ele se abria a contagem parava para ver qual dos meninos a freira vinha chamar.

Entre uma chamada e outra se passavam intermináveis minutos. Quantas dúvidas, quanta insegurança, quanta ansiedade era possível passar pelas nossas cabeças naqueles curtos momentos... Será que não puderam vir? Se chegarem atrasados não vou ter tempo de contar quase nada e de ficar sabendo das novidades de fora! Ou será que já chegaram e a freira não veio chamar? E o que estarão dizendo as freiras de mim para eles?

Vez por outra, por castigo, algum menino ficava sem o direito de receber visita. Era raro, mas por isso mesmo não menos temido. O coitado chorava e a mãe também. Por fim as freiras quase sempre cediam e acabavam permitindo o encontro, ainda que depois de repetir as broncas e de fazer grandes reprimendas ao faltoso.

Pior era quando algum menino não recebia visita de ninguém. Às vezes avisavam por telefone, informando de algum problema de última hora. Outras sequer davam notícia. Todos tinham pena daqueles “abandonados”.

Só permitiam a visita de, no máximo, duas pessoas para cada aluno. Se por acaso vinha alguém a mais tinha que esperar no portão até que algum dos visitantes saísse. Nos aniversários, porém, fazia-se exceção e deixavam que as famílias trouxessem um bolo e cantassem baixinho o “parabéns a você”.

Irmã Alegria e Irmã Vicência ficavam o tempo todo na sala e participavam das conversas com as mães das crianças. Assim não davam espaço para as reclamações. Também ficavam atentas aos modos e comportamentos dos visitantes. Vez por outra chegavam mesmo a criticar as mães que se apresentassem usando pintura ou uma roupa mais colorida, ou por algum outro motivo. Talvez julgassem que ninguém poderia estar ali sem demonstrar outro sentimento que não o de tristeza.

A verdade é que não havia muito que contar. Nossa vida era extremamente rotineira e a disciplina não dava espaço para grandes novidades. Além disso, nossas mães tampouco podiam contar muita coisa das suas vidas que nos pudessem interessar. Depois de referir alguma coisa sobre o que faziam meus irmãos e sobre o restante da família os silêncios aumentavam. Apesar disso os minutos andavam depressa. Quando se anunciava o fim do horário de visita lá vinha o nó na garganta que os mais novos logo desatavam em lágrimas e os mais velho disfarçavam dizendo alguma coisa sem nexo.

Voltávamos para a sala de recreação e no caminho os embrulhos que cada um recebera eram entregues a uma das freiras, que anotava neles o nome de cada um. Sabonetes eram para uso pessoal e iam para o nosso escaninho do banheiro; as pastas de dentes iam para o fundo de uso comum. O que fosse de comer, geralmente frutas, nos seria devolvido comedidamente ao longo dos dias seguintes. Sempre que era possível eu guardava o meu papel de embrulho porque conservava o “cheirinho” de casa.


terça-feira, 16 de março de 2010

Rotina

A saída de Portugal onde eu havia nascido, o relacionamento com os até então desconhecidos parentes do Rio de Janeiro, a adaptação ao novo clima tropical, o aprendizado do sotaque e vocabulário do carioca, todas aquelas mudanças pareciam desafios fáceis comparados com a mudança do Grajaú para São Cristóvão. É que até aquele momento minha mãe tinha estado sempre perto e presente. Agora, ela, a tia Olímpia, os irmãos, tios, primos, deixavam de ser os personagens de referência. Dali por diante eu estaria longe deles, convivendo com pessoas desconhecidas e num ambiente completamente estranho. Não era um ambiente hostil, mas eu me sentia sufocado pelas saudades, pelos muros que cercavam a escola, pela sensação de isolamento e por ver todas essas mesmas percepções espelhadas em cada um dos rostos dos outros meninos.

“O que não tem remédio, remediado está”, costumava dizer a tia Olímpia, sempre pronta a avaliar tudo com o tradicional determinismo da cultura popular portuguesa. E assim foi.

Com o passar das primeiras semanas os espaços do colégio iam aos poucos se revelando e se encaixando nos referenciais daquele novo espaço-mundo. Associar nomes aos rostos, a seqüência das atividades de rotina, as regras para comer, brincar, estudar, enfim, para o que era permitido fazer. Tudo funcionava segundo uma ordem estabelecida. Mais uma vez me vinham à memória os ditos da tia Olímpia apreendidos nas tradições de um povo de emigrantes : “na terra aonde fores ter, faz como vires fazer”. E assim as recordações de casa e os apertos da saudade iam ficando para os momentos de maior isolamento, na hora das rezas ou sob os lençóis da cama e o manto das noites em que o sono custava a chegar.

Os dias dos internos começavam cedo, às sete horas. Era quando uma das freiras entrava no dormitório batendo palmas para fazer todo mundo sair da cama. Logo ela abria as janelas altas e o sol inundava as pequenas caras ainda estremunhadas da criançada. Em pouco tempo os grupos iam-se organizando em fila para ir ao banheiro onde outra freira já estava a postos para supervisionar e organizar os que iriam escovar os dentes e aguardar a vez de tomar seu banho frio. Enquanto isso os outros arrumavam as camas.

Dali a meia hora todos estavam prontos, em fila indiana, os menores à frente e os maiores fechando o pelotão. Então desciam para a primeira refeição do dia: o invariável café com leite e pão com manteiga. Do refeitório marchavam para as salas de aula no primeiro andar. As classes começavam às oito horas e iam até ao meio-dia. Hora de se organizar outra vez a fila, desta vez na varanda, para descer para ao refeitório e encher as barrigas vazias. Uma mesa de cada vez, as crianças iam para a fila pegar da pilha um prato de ferro esmaltado, branco, e aguardarem serem servidas. As porções eram boas, mas alguém sempre estava disposto a repetir, se sobrasse. Depois do almoço era a hora do bendito recreio, geralmente no pátio externo. Uma hora para por os assuntos em dia e dedicar-se às brincadeiras. Para os meninos maiores, entretanto, o recreio começava mais tarde. Eram escalados, em sistema de revezamento, dois por semana, para lavar os pratos após as refeições. Nos dois últimos anos eu era sempre um dos escalados para esses serviços. Mas sempre havia uma expectativa de compensação já que a despensa ficava bem ao lado da copa e lá estava o depósito com atraentes torrões de açúcar a se oferecerem às mãos ligeiras e bocas gulosas. Que a Irmã Luiza não visse! O resto da tarde era dedicado a fazer as lições de casa, com uma interrupção para fazer um lanche rápido.

Lá pelas cinco da tarde era o momento das orações rezadas no coro da capela. Primeiro o terço, depois as ladainhas, encerrando-se com o ensaio dos cânticos para a missa dominical. Às seis já todos estavam de volta ao refeitório para o jantar, uma refeição mais leve. Depois mais meia hora de recreio no pátio. Para finalizar o dia mais duas horas de estudo ou leitura. Às nove horas todos já estavam na cama para dormir.

Todos deitados, luzes apagadas, a freira circulava entre as fileiras de camas até se dar conta de que todos dormiam.

Os sábados eram dedicados à faxina, atividade que ficava sob a responsabilidade dos meninos maiores comandados pela Irmã Luiza e Irmã Vicência. As turmas eram divididas e cada grupo tratava de cumprir sua missão: limpar banheiros, lavar as varandas, encerar as salas, etc. A função de lavar os banheiros era considerada como a mais desagradável porque tínhamos que esvaziar, com um pano, toda a água do sifão das privadas e depois lavar com sabão e sapólio para deixar tudo brilhando e desinfetado. O mais pesado era lavar com esfregão as compridas varandas do colégio, todas em ladrilhos brancos, hexagonais. As paredes adjacentes eram revestidas de azulejos também brancos que deviam ficar brilhantes e limpos. Não havia hipótese de deixar alguma sujeira que não fosse logo vista pelos olhos aguçados das freiras. Mas havia sempre o lado divertido da coisa. Ficávamos esperando que a freira se afastasse para “esquiar” no piso escorregadio de água e sabão. Tudo em meio a risos abafados. Às vezes podia-se ganhar um tombo, que além da dor poderia revelar a molecagem. Por isso a maioria “esquiava” com a mão acompanhando o muro da varanda para o caso de perder o equilíbrio. Encerar e dar lustre no piso das salas era outra das duras tarefas do sábado. Naquele tempo só havia cera em pasta e o lustro era conseguido na base de escovão. Como tudo o mais, também virava brincadeira na ausência das freiras, com os escovões dançando freneticamente de um lado para o outro e escapando – de propósito – em direção a uma vítima.

Os trabalhos das manhãs de sábado terminavam sempre na hora do almoço. Era a hora da recompensa para a turma da limpeza: um prato reforçado e sobremesa em dobro.

Um sábado por mês era dedicado ao corte de cabelo da garotada. Duas freiras dividiam entre si a tarefa. Geralmente a Irmã Vicência ficava com a velha máquina manual e a Irmã Alegria com uma mais moderna, elétrica. Ficávamos esperando a vez e torcendo para não cair com a irmã Vicência porque a máquina manual mordia e puxava o cabelo da gente. Mas o que ninguém gostava mesmo era o estilo de corte: a detestável franjinha, aquele tufo de cabelos em semicírculo, na frente, sobre a testa. O resto era passado na máquina zero. Na copa do mundo de futebol de 2002 o jogador Ronaldo tentou relançar essa velha moda e muita gente achou graça. Eu tinha um motivo a mais para não gostar desse estilo de corte: eram as minhas orelhas de abano que pareciam dobrar de tamanho quando me cortavam o cabelo daquele jeito. Os que ficavam por último gozavam dos que levavam as mordidas da máquina e das caras de desconsolo que uns faziam ao levantar da cadeira.

Os domingos começavam pela missa na capela. Era sempre bem cedinho, antes do café, para que todos pudessem comungar. É que no sábado à tarde recebíamos a visita do Monsenhor Magalhães para nos confessar e fazer alguma preleção. O resto do dia era dedicado inteiramente aos jogos e brincadeiras, no pátio ou numa das salas do primeiro andar.

Aquelas rotinas tentavam nos passar um mundo de ordem, organizado e estável. De previsibilidade, mas também de segurança. Procuravam definir um limite para novas experiências e situações.

O pior era que a rotina parecia esticar o tempo. Os poucos dias especiais demoravam uma eternidade: o sábado do cinema, os dias das festas religiosas como a Páscoa, São João e Cosme e Damião. O dia de sairmos de férias, então, parecia demorar séculos. Até esse dia chegar contávamos as horas e os minutos que faltavam para o domingo da visita mensal. Esse será o tema da próxima semana.