terça-feira, 12 de setembro de 2017

O Departamento Masculino em Teresópolis (1940-1952)


Em 1935 a Irmandade da Candelária adquiriu uma propriedade na aprazível Teresópolis para servir como colônia de férias para as internas do Departamento Feminino. Tratava-se de uma chácara de 24 mil metros quadrados na qual estava construída uma casa, com frente para a Rua Gonçalo de Castro, nº 421. Era então um casarão de três níveis (porão e dois andares), conhecido como "Vila Rosinha", nome de sua anterior proprietária. Para além da casa, a propriedade compreendia também um belo e diversificado bosque, de mata atlântica, enriquecido com espécies que seus antigos donos haviam trazidos dos lugares por onde viajavam.
A Vila Rosinha em 1926 (fonte "Reminiscências de Teresópolis")

Apesar de grande, porém, a casa não tinha espaço suficiente para comportar todo o grupo de meninas, cerca de duzentas. Foi preciso que a Candelária fizesse obras de ampliação e adaptação, mas sem lhe alterar o estilo.  Com a presença das meninas durante os meses de janeiro e fevereiro, o local passaria a ser conhecido como o “Retiro da Candelária”.

Considerando que a propriedade ficava sem uso durante o restante do ano, resolveu a Irmandade, na provedoria de Antonio Louçã de Moraes Carvalho, ali recriar, em 1940, o Departamento Masculino, que havia sido encerrado em 1915.

O ato de inauguração do novo Departamento deu-se a 28 de julho daquele ano. Celebrou-se uma missa, pelo padre Leonardo Carrescia, capelão da Candelária, acompanhada pelo coro das alunas do Departamento Feminino. 

Nessa nova etapa do Departamento Masculino definiu-se como lotação inicial o número de trinta alunos e para administrar a unidade foram convidadas as Irmãs da Congregação de São Vicente de Paulo, as Vicentinas, que já colaboravam com a Irmandade na gestão do Hospital Frei Antonio. A direção ficou aos cuidados da Irmã Alegria, auxiliada pelas Irmãs Antoinete e Gabriela. Algum tempo depois estas últimas seriam substituídas pelas Irmãs Vicência e Luiza, da mesma congregação.  

A instalação do Departamento Masculino no imóvel de Teresópolis não impediu que ele continuasse sendo utilizado pelas meninas durante as férias de verão. Isso, entretanto, obrigava os meninos a transferir-se para o Rio de Janeiro, para outra propriedade da Irmandade conhecida como “Retiro da Graça”, localizada em Cachambi (Méier).  

O colégio proporcionava então apenas o curso primário, equivalente aos primeiros quatro anos do atual ensino fundamental. Era a própria Irmã Alegria a responsável por ministrar as aulas, seguindo o programa oficial. As provas parciais ou finais, entretanto, eram feitas nas escolas oficiais locais. O ensino do catecismo ficava sob a responsabilidade da Irmã Antoinete e a ginástica a cargo da Irmã Gabriela. 
Os meninos entravam com 6 a 8 anos de idade e saíam, via de regra, ao final do curso, em geral com 11-12 anos. Entretanto, não foram poucos os que permaneceram por mais alguns anos sob os cuidados das freiras. Vários chegaram mesmo a permanecer até a faixa dos 14-16 anos.

O último ano letivo realizado no local foi o de 1952.  No dia 28 de dezembro desse mesmo ano estavam todos instalados no prédio da rua Teixeira Júnior, que a Irmandade havia adquirido anos antes, na provedoria de Alfredo Afonso Simões.

Pelo que representaram na reabertura do Depto. Masculino em Teresópolis e sua instalação definitiva na rua Teixeira Júnior, no Rio de Janeiro, os retratos dos provedores Antonio Louçã e de Alfredo Simões, dividem o salão de honra do colégio, ao lado do patrono, Gonçalves de Araújo.


Antonio Louçã de Moraes Carvalho (à esquerda) e
Alfredo Afonso Simões (à direita)

Durante esse período passaram pelo colégio 94 alunos. Ao final de 1952 permaneciam inscritos 28, dos quais 27 foram transferidos para as instalações da rua Teixeira Júnior, pois um deles havia sido admitido no Seminário de Petrópolis. Quase todos estiveram presentes à festa de inauguração e posaram para uma fotografia em uma das sala de aula das novas instalações, na companhia da Irmã Alegria.

Os meninos de Teresópolis: 1º dia na Teixeira Júnior
(foto: Arquivo da Candelária)


(texto revisado em 02/10/2017)




segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Visita ao mausoléu de Antonio Gonçalves de Araújo



É no cemitério de São Francisco Xavier, ou do Cajú, como é popularmente conhecido, que se encontra o túmulo de Antonio Gonçalves de Araújo. 

Originalmente sepultado na sepultura perpétua nº 1829, seus restos mortais foram transladados em 1926 para um honroso mausoléu mandado construir pela Candelária.

Apesar de estar situado a menos de dois quilômetros do Campo de São Cristóvão, não me lembro de ter participado de qualquer ato comemorativo nesse local durante os quatro anos em que fui interno do Educandário. Agora, quase seis décadas após deixar o colégio, achei que devia visita-lo. Assim, na tarde do dia 24 de agosto de 2016 entrei por primeira vez naquela necrópole. Munido com as indicações recebidas na Candelária, não me foi difícil localizar o mausoléu, situado na quadra 3 da Rua das Rosas, logo à esquerda da entrada principal.

Diante da pequena construção senti que cumpria um ato de reconhecimento e, em silêncio, considerei uma vez mais o quanto da minha trajetória de vida – e certamente a de muitos outros ex-alunos - devia ao nobre legado de Antonio Gonçalves de Araújo e à gestão que há mais de um século lhe tem dado a Irmandade da Candelária.

A elegante peça arquitetônica que honra sua memória foi encomendada ao mestre Rodolfo Bernardelli, atualmente reconhecido como o mais notável dos nossos escultores. Foi executada pelo marmorista Bernardino de Paula. São seus vizinhos os túmulos da família Mayrink Veiga e do Barão do Rio Branco.



O mausoléu que guarda os restos mortais de Gonçalves de Araújo,
no cemitério de São Francisco Xavier, tendo ao fundo o recorte do Corcovado.

Pouco abaixo do busto do benfeitor, também obra de Bernardelli, se lê:

“À orfandade legou pão e luz e enobreceu duas pátrias”.

A frase é provavelmente da autoria do barão de Ramiz Galvão, então diretor do Educandário, e consta do discurso que proferiu na tarde do dia 29 de junho de 1926, na cerimônia com que se inaugurou aquele mausoléu. Ele pretendeu resumir assim o significado do legado de Gonçalves de Araújo: dar abrigo material (pão) e educação (luz) a crianças pobres. Talvez pudessem ser substituídas pela redação simples e clara que o próprio benfeitor usou ao ditar seu testamento:

“Os meus testamenteiros criarão em minha intenção nesta cidade uma instituição de beneficência para crianças desvalidas, onde se lhes dê sustento, educação e instrução primária e industrial ...”


Vista frontal do mausoléu

Abaixo dessa inscrição foi colocada uma placa metálica com a reprodução da fachada do prédio do Educandário, construção que assinalava aos olhos da cidade a sua obra benemérita. Outra placa, pouco acima do solo, registra a gratidão da Irmandade:

Ao grande benfeitor Antonio Gonçalves de Araújo
Gratidão da Irmandade do S.S. da Candelária
1925-1926

Estiveram presentes ao ato o provedor Albino Ferreira de Sá Coelho, toda a administração da Candelária, membros do corpo docente e um grupo de alunas do Educandário. 

Ao final da cerimônia todos se dirigiram ao prédio do Educandário, no Campo de São Cristóvão, onde foi inaugurado o retrato do conselheiro Gaspar da Rocha, falecido em 1916, que havia sido o testamenteiro de Gonçalves de Araújo e responsável pela destinação do legado à Irmandade da Candelária.



Créditos:
Texto e fotos: Amilcar Gramacho (ex-aluno; 1954-1957).
Fontes:
Arquivo F. B. Marques Pinheiro (Irmandade do SS da Candelária)
Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional: O Tempo, 24/09/1891, p.1; Correio da Manhã, 30/06/1926, p.8; Jornal do Brasil, 18/04/1926, p.12, 27/06/1926, p.13, 29/06/1926, p.14 e 30/06/1926, p.12.

Brasília, outubro de 2016

domingo, 23 de agosto de 2015

O 185º aniversário do nascimento de Antonio Gonçalves de Araújo

 11 de agosto de 1830


Antonio Gonçalves de Araújo: 
retrato a bico de pena publicado na Gazeta de Notícias (RJ), 
edição de 14/10/1889, p1.



Encontramos no Arquivo Distrital do Porto, em Portugal, o registro de batismo de Antonio Gonçalves de Araújo. O ato foi realizado na Paróquia de São João Batista, Freguesia de São João da Foz, na cidade do Porto. A imagem do registro original disponibilizada por aquele arquiva é a reproduzida abaixo:






 Fonte: Arquivo Distrital do Porto PT-ADPRT-PRQ-PPRT05-001-0013m00092/3



O texto diz:
Antonio,  filho legítimo de Francisco Gonçalves de Araújo e de Rita Maria de Jesus, de Carvalho de Cima, desta freguesia de São João da Foz do Douro, neto paterno de José Gonçalves de Araújo e de Maria Casimira da Costa, e materno de Manoel da Costa de Carvalho e de Ana Teresa de Jesus Costa, todos desta freguesia; nasceu aos onze do mês de agosto de mil oitocentos e trinta e foi batizado solenemente por mim Frei José do Espírito Santo, vigário desta freguesia, aos dezoito do mesmo mês. Era ut supra. Foram padrinhos Antonio Francisco Ramalho e Anna Casimira da Encarnação e testemunhas José Gonçalves de Araújo e Antonio José da Cunha que aqui assinaram comigo. Era ut supra.
O vigário Fr. José do Espírito Santo
José Gonçalves de Araújo
Antonio Jose da Cunha.


A igreja onde Gonçalves de Araújo foi batizado.
(Imagem do Google Earth)

domingo, 26 de outubro de 2014

Educandário Gonçalves de Araújo: uma pequena história do prédio da Teixeira Júnior



Uma pesquisa nos antigos jornais do acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (http://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx) nos permitiu descobrir informações interessantes sobre o prédio em que foi instalado pela Irmandade da Candelária, em 1953, o então Departamento Masculino do EGA.

As evidências encontradas indicam que sua construção é anterior a 1897, ano em que o imóvel foi adquirido pelo padre Manuel Lobato Carneiro da Cunha com a finalidade de ali instalar o Colégio Pio Americano, fundado nesse mesmo ano, mas que funcionava na rua São Cristóvão. Em novembro de 1897,  antes mesmo da transferência do colégio para suas novas instalações, padre Lobato inaugurou a capela que mandara construir.

Entre o material disponibilizado pela Biblioteca Nacional encontramos algumas imagens antigas, ainda como sede do Colégio Pio Americano, algumas das quais apresentamos aqui.

A primeira delas data de 1904 por ocasião da solenidade de encerramento do ano letivo, evento que contou com a presença do presidente da república, Rodrigues Alves.


O presidente Rodrigues Alves, ao centro, tendo à sua esquerda monsenhor Manuel Lobato, diretor do Pio Americano. À direita do presidente estão o ministro Joaquim Seabra e, parcialmente encoberto, o barão de Ramiz Galvão, diretor do EGA. (A foto foi tomada diante das salas do térreo que hoje dão para o pátio de recreação. Os vãos arredondados das portas seriam depois modificados com as obras executadas no prédio em 1952, após sua aquisição pela Irmandade da Candelária) - (clique sobre a foto para ampliar)

Fotos  ainda mais interessantes aparecem em publicações de 1920 e 1926. Elas conseguiram captar toda a fachada do prédio, o que não seria possível hoje em dia por conta das copas  das árvores que dão sombra à Teixeira Junior.

Fachada do Pio Americano em 1920.


Fachada do Pio Americano em 1926

Também de 1926 é a foto que mostra o pátio interno do colégio. Essa imagem permite uma visão das molduras das portas do andar térreo diante das quais se fotografou a visita do presidente Rodrigues Alves em 1904. Também se percebe a estrutura das varandas, que seriam modificadas depois nas reformas promovidas pela administração da Candelária.


Pátio e varandas do Pio Americano, em 1926, com os alunos em forma.

A imagem seguinte, publicada em 1941, permite identificar algumas das características originais da fachada e da varanda do bloco central. Também se vê que o acesso ao prédio era feito por uma rampa e não pelas escadas como hoje ocorre.

Outra curiosidade é que o prédio já tinha o número 48, por conta da renumeração adotada em 1909. Só em 1950 é que passaria a receber o atual número 158.

A capela passou por reformas após a aquisição do prédio pela Candelária e foi reinaugurada em 1956, mas não se notam alterações significativas em sua fachada, exceto uma porta lateral que desapareceu.


Anúncio de 1941

Na versão atual a fachada do prédio perdeu alguns adornos em relação ao projeto original, alteração que veio contribuir para realçar o estilo gótico da capela, que foi preservado.



Fachada atual, cuja vista fica prejudicada pelas copas das árvores e pela fiação (fonte: Google Earth).

segunda-feira, 30 de abril de 2012

O antigo hino do EGA


Minha irmã, que também foi aluna do EGA nos anos 50-60, esteve no ano passado (2011) de volta ao colégio (o antigo Departamento Feminino, no Campo de S. Cristóvão) para uma missa em louvor ao patrono Antonio Gonçalves de Araújo. Já não funcionava mais o regime de internato e ela achou tudo muito mudado em relação ao tempo em que ali estudou.

O contato com o ambiente e com algumas alunas antigas, entretanto, estimulou sua memória e ela se lembrou de um hino do qual eu já não tinha a menor idéia. Era o antigo hino do educandário cuja letra, ela garante, seria assim:


“Da orfandade e da pobreza

feriu-nos o agudo espinho,

da aurora da vida em prantos,

sem amparo e sem carinho.



Mas deu-nos plácido asilo

Araújo o grande amigo.

Legou-nos conforto, vida, luz,

amor, ternura e abrigo.



Protetor bendito salve,

que a dor converteste em risos.

Coroas teçam-te os anjos

na glória do paraíso.

Salve! Salve!"



Henrique Pinto, que foi meu colega na Teixeira Jr, também se lembra de que esse hino era igualmente cantado no Departamento Masculino. Recordou-me que foi ensinado e ensaiado por uma "professora" chamada Da. Inez que nos havia dado algumas aulas de música durante certa época. Diz que ela também nos ensinou o "Canto do Pagé" de Heitor Villa Lobos, depois cantado pelo nosso colega Roberto em uma comemoração. A partir de então, diz ele, em quase todas as festas do EGA nós cantávamos este hino.

Hoje em dia, segundo contaram à minha irmã, o antigo hino não é mais cantado, tendo sido substituído por um mais moderno.

Tentei encontrar alguma referência sobre o velho hino e tudo o que descobri foi uma notícia sobre um hino a Gonçalves de Araújo cuja autoria era atribuída ao maestro Francisco Braga e a letra ao barão de Ramiz Galvão. A data não é informada, mas é provável que seja das primeiras décadas do século passado.

Essa indicação está no catálogo da “Exposição comemorativa do centenário de Francisco Braga (1868-1945), publicada pela Biblioteca Nacional (RJ), e que está atualmente disponível em versão digital que pode ser acessada pelo link abaixo. A referência ao hino está na página 83, onde é dada como peça não encontrada nos vários acervos de obras de Francisco Braga. Será o mesmo hino?

Ramiz Galvão, como se sabe, foi o primeiro diretor do EGA, desde sua fundação em 1900. O maestro Francisco Braga, por outro lado, conhecido como autor do hino da Bandeira, teria sido, segundo a fonte mencionada, aluno de um “Asilo para Crianças Desvalidas”, onde ficou interno dos 8 aos 18 anos de idade.


http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_iconografia/icon1285813.pdf



sábado, 30 de outubro de 2010

O Colégio Pedro II (continuação)

A carteirinha (capa) de identida do Pedro II

O distintivo do 4º ano ginasial (1961)

A vida no colégio era um carrossel de novidades onde a rotina das aulas parecia apenas impor uma pausa. Para mim, em particular, havia muito mais a descobrir além do que constava nos manuais escolares. Com isso as matérias do curso formal ficaram para segundo plano. Nem mesmo a matemática escapou. A matéria era um dos pontos fortes do colégio e estava até no nosso “grito de guerra”, a “tabuada”:

“Pedro II, tudo ou nada?
Tudo!
Então, como é que é?
É tabuada!
Três vezes nove, vinte e sete.
Três vezes sete, vinte e um.
Menos doze ficam nove,
Mnos oito fica um.
Zum, zum, zum...
Paratibum...
Pedro II!”.

Nas horas de recreio os grupos se formavam para conversar e para participar das brincadeiras. Eram nessas horas também que a garotada desfilava seus novos brinquedos, revistas, livros e também seus objetos que identificavam e diferenciavam o status social de cada um: canetas Parker 51, radinhos de pilha SPIKA, relógios de pulso, raquetes de pingue-pongue importadas e outras "preciosidades" da época.

As informações chegavam mais completas e podíamos conversar sobre tudo com liberdade. Além disso, o convívio com os mais velhos, alunos do científico e do clássico, nos estimulava a formar uma consciência melhor do que se passava no lado de fora. Era comum que os estudantes, mesmo os do segundo grau, se envolvessem em assuntos de interesse público. Como havia ocorrido em 57, quando os alunos do Pedro II participaram de um grande protesto contra o aumento da passagem dos bondes e que paralizaram o trânsito em alguns pontos da cidade.

Durante os anos que estive no Pedro II assisti à construção, no Campo de São Cristóvão, do centro de exposições para as comemorações do IV Centenário da cidade. A sala de aula no quarto andar do velho prédio permitia uma boa visão daquela obra de arquitetura diferente. A colocação das placas de cobertura era uma novidade e um desafio novo para os engenheiros. Foi um trabalho demorado e custoso e, ao que tudo indica discutível. No primeiro temporal metade daquelas placas voou. Hoje, sem a problemática cobertura, está destinado a um centro de tradições nordestinas.

Na mesma época o Pedro II também estava em obras. Construía-se um novo prédio para salas de aula. Por alguma razão, entretanto, as obras foram paralisadas e assim permaneceram por muito tempo. Só foram retomadas após o incêndio misterioso que destruiu o prédio antigo, em janeiro de 61, durante as férias.

Não foi o incêndio, entretanto, que destruiu a velha instituição. Eu sai no final de 61, após concluir o 4º ano do ginasial. O regime de internato (que havia sido inaugurado em 1857) ainda durou alguns anos mais, até 1968. Foram 111 anos de história! A mudança mais importante, entretanto, viria em 1971 com a lei que reestruturava o ensino médio no Brasil e unia o curso ginasial ao primário, em oito séries, formando o novo “primeiro grau”. Ficava extinto, portanto, o processo seletivo que caracterizara historicamente o Pedro II. A instituição continua existindo até hoje, mas em bases completamente distintas das que eu experimentei ali.

Minha passagem como estudante pelo histórico colégio do campo de São Cristóvão foi muito modesta: terminei o 4º ano com média pouco acima de seis. A experiência, contudo, valeu por uma universidade.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O Colégio Pedro II


O colégio Pedro II do Campo de São Cristóvão era também um internato. Pode parecer que naquela época só havia colégios assim no Rio de Janeiro. Na verdade os internatos tinham sido uma necessidade na época em que não havia escolas no interior do país para que os jovens progredissem além dos estudos básicos. O ensino mais qualificado só estava disponível nos colégios das cidades de maior porte e nas capitais. Assim, boa parte deles recebia alunos como internos.

Os internatos marcaram época e ficaram imortalizados na literatura brasileira, como em “O Ateneu”, de Raul Pompéia, editado em 1888, e “Doidinho” de José Lins do Rego, publicado em 1933. Depois desses ainda saíram os textos de Pedro Nava, com “Balão Cativo”, de 1973 e “Chão de Ferro”, publicado em 1976, este narrando sua passagem pelo Pedro II, nos anos 20. Todos os textos são autobiográficos.

Na segunda metade do século XX essa não era mais a realidade e o Pedro II era um dos poucos remanescentes daquela época. Além do mais, era um colégio especial que carregava uma longa e importante história. Havia sido criado no dia 2 de dezembro de 1837 em homenagem ao imperador Pedro II que naquela data completava doze anos. Foi instalado no prédio da atual Avenida Floriano Peixoto, no centro da cidade, onde deveria funcionar tanto em regime de externato como de internato. Vinte anos mais tarde, em 1857, o internato passou a constituir uma unidade distinta, instalado na Rua São Francisco Xavier, onde funcionou por três décadas. Em 1888 foi transferido para o campo de São Cristóvão, no mesmo local onde, curiosamente, a Candelária havia pretendido instalar o seu primitivo projeto do Asilo para a Infância Desvalida. A coincidência ficava apenas no interesse pelo prédio. O colégio Pedro II era uma instituição que se destinava à educação da elite juvenil brasileira, preparando alunos para o ensino superior, muito diferente, portanto, do asilo imaginado pela Candelária, voltado para o ensino básico e da preparação para as atividades técnicas fabris.



O prédio do colégio Pedro II, no início do século XX

No final dos anos 50, embora já não fizesse mais sentido a manutenção de internatos daquele tipo, como acima foi dito, o Pedro II preservava o seu antigo formato. Não era apenas por tradição, mas porque era ainda considerado como colégio padrão para o ensino secundário em todo país. Possuía um quadro de professores do mais alto nível e os livros adotados pelo colégio eram referência para a maioria das outras escolas. Por tudo isso, suas vagas continuavam a ser intensamente disputadas.

Quando me inscreveram para o concurso de admissão ao Pedro II eu não sabia nada disso. O que eu sabia apenas é que era um outro internato e que era gratuito, condições que estavam em acordo com as finanças da família e que o colocavam no topo das nossas preferências. Eu também não entendia porque que apesar de se tratar de um internato havia uma multidão de candidatos, a grande maioria composta por jovens provenientes de famílias da classe média que residiam na própria cidade do Rio de Janeiro e que não teriam problemas em freqüentar os externatos.

Só aos poucos fui me dando conta do que representava o ingresso naquele colégio. Principalmente pela expressão de respeito que os adultos pareciam dar ao fato de eu ter passado no exame de admissão. Aos poucos, também, fui entendendo as diferenças com o internato de onde saíra. No anterior éramos todos pobres e nada nos diferenciava. Ali, apesar da gratuidade, poucos eram realmente carentes. Aliás, foi preciso que minha mãe andasse atrás de atestados de pobreza para que a burocracia estatal me concedesse o direito de receber gratuitamente livros, cadernos, uniformes e todo o enxoval de cama e banho que o colégio exigia.

A consciência das diferenças entre os dois internatos só veio mesmo com o início das aulas. O primeiro dia foi algo inesquecível. Centenas de garotos, dos onze ao vinte anos se apinhavam no grande pátio coberto contíguo ao velho prédio. Os veteranos saudando o retorno às aulas; os novatos tentando fazer os primeiros contatos entre si. A algazarra era imensa e parecia incontrolável. Até que surgiram os inspetores com suas batas brancas e, logo, com autoridade, foram organizando as turmas. Em poucos minutos todos estavam em filas, aguardando o comando para subir para as salas de aulas. Minha turma era mais numerosa do que toda a população do anterior educandário. Era o momento agora do primeiro contato com os professores, da tentativa de conhecer cada um dos companheiros pelo nome, acompanhando a chamada oral. E de ouvir pela primeira vez o próprio nome naquela lista. Era verdade: eu estava ali.

Depois veio o primeiro recreio e o início das primeiras amizades. E também a surpresa, esta pelo lado negativo, de ser obrigado a passar pelo tão tradicional quanto estúpido trote. Principalmente por que minhas orelhas de abano me faziam ser um dos mais requisitados pelos veteranos. Enfim, era uma forma de batismo e de contato entre novos e velhos alunos que os inspetores não reprimiam Mas ficavam vigilantes e sua presença evitava abusos.

Depois das primeiras semanas já me sentia plenamente um membro daquela grande comunidade. Para quem saíra de um internato religioso com trinta e poucas crianças, o Pedro II era um mundo. Mais de quinhentos alunos, pelo menos uma centena de professores e bedéis e outro tanto de funcionários diversos. E muito espaço: o colégio ocupava uma área aproximada de quarenta mil metros quadrados. Parecia impossível que tudo aquilo pudesse funcionar ordenadamente. Na verdade o colégio tinha regras a serem respeitadas e a os bedéis eram bastante rígidos. Eles se revezavam com os professores nas salas de aula e marcavam presença também nas áreas de recreio, refeitório e em todos os outros espaços onde os alunos poderiam estar durante o dia. Nos dormitórios, eram mantidos vigias por toda a noite.

O Campo de São Cristóvão, por volta de 1960:
o Centro de Exposições ao centro, ainda com as placas de cobertura do projeto original,
e o colégio Pedro II ao alto, onde se pode identificar o antigo prédio
 e, mais atrás, o novo e amplo edifício em construção.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Último dia

Quinze de dezembro, domingo. 1957. Dia da festa de encerramento do ano letivo. Como ocorria todos os anos, a cerimônia constava de premiações aos que se haviam destacado nos estudos e no comportamento. Minha mãe e a tia Olímpia estavam lá. Minha participação no vestibular para o Pedro II foi reconhecida e elogiada, mesmo sem se saber ainda o resultado. Recebi uma nova medalhinha dourada de “honra ao mérito” e um prêmio em dinheiro creditado numa conta de poupança que eu poderia retirar quando fizesse dezoito anos. 

Os lauréis eram importantes, mas o momento mais aguardado, depois de quatro anos de internato, era o momento de cruzar o portão de ferro com a certeza de que não teria que retornar no ano seguinte.

Encerrada a festa, começaram as despedidas. À sensação da liberdade juntava-se a sensação das perdas. Deixavam também o colégio naquele ano o Rogério, o Marcos e o Walter, companheiros de quatro longos anos. Também saíam os que terminaram a 4ª série naquele ano. Talvez jamais voltasse a encontrá-los. Iriam todos enfrentar novos desafios em mundos diferentes. A única certeza era de que nenhum de nós esperava encontrar uma vida fácil.

À saída, as professoras e freiras desejaram-nos boa sorte. Teriam motivos para pensar que nunca mais nos veriam. Tinham cumprido sua missão.

O portão estava aberto. Cruzá-lo já não tinha mais nenhum significado especial. Era apenas uma passagem.

Minha mãe e eu alcançamos a rua e seguimos a pé para o Campo de São Cristóvão onde também acontecia o encerramento do ano letivo no Departamento Feminino.

Era um dia quente, prenunciando o calor intenso de mais um verão carioca. A rua já estava calma e silenciosa como sempre, indiferente aos transeuntes. Íamos falando dos novos problemas e de como as coisas se arranjariam dali por diante.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Passaporte para o ginásio

Não foi só pelo episódio do concurso de matemática nos tempos da 4ª série que eu guardo a professora Maria Luiza na memória com um carinho especial. Ela sabia da situação de todos os seus alunos de suas famílias e tentava sempre fazer algo a mais para nos ajudar a aprender. E foi com essa motivação que no final daquele ano começou a fazer mais uma campanha, desta vez para que o colégio oferecesse, no ano seguinte, a quinta série. É que naquela época o curso primário ia só até à 4ª série e esse era o compromisso do educandário para com os internos. Concluída a 4ª série tínhamos de voltar para casa e buscar cada um o seu próprio rumo. Além disso, para se entrar no ginasial era preciso passar por um exame de admissão, razão porque muitas escolas adotavam um 5º ano, também chamado de « curso de admissão ». E tal foi o seu empenho que mais uma vez conseguiu o seu intento. Ela conseguiu fazer, também, que eu entendesse que ficar um ano a mais no internato era algo necessário e bom para mim.

Mas não ficou por aí. Quando alguém sugeriu no ano seguinte que eu deveria tentar uma vaga para fazer o  ginasial no histórico Colégio Pedro II foi ela mais uma vez que me tomou como aluno especial, para que eu não perdesse aquela oportunidade. É que a disputa era bem concorrida; mais de dois mil candidatos para apenas quarenta vagas.

Faltando um mês para os exames ela conseguiu que as freiras me deixassem ir para a sua casa e me fez estudar em regime intensivo. Deu resultado. Quando o Diário de Notícias publicou a relação dos classificados, na edição do dia 20 de dezembro, meu nome estava lá. A 40ª vaga era a minha. Era o meu passaporte para uma escola considerada de elite.

Alguns dias depois minha mãe e eu fomos à casa da professora agradecer o quanto fizera por mim. Dona Maria Luiza estava feliz. Tinha sido uma vitória também sua.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Dois presidentes

Dois Presidentes




A comunidade luso-brasileira estava em festa naquele início de junho de 1957. Desde 1910, ano em que se instalou a República em Portugal, era apenas a segunda vez que o Brasil ia receber a visita de um presidente da “pátria-mãe”. O ilustre visitante era o General Craveiro Lopes, militar de carreira, formado na aviação, que apesar de General e de Presidente pouco mandava em Portugal. Talvez por isso tenha sido esperado com mais carinho.

Craveiro Lopes era uma espécie de chefe de estado dos atuais regimes parlamentares. Havia assumido a presidência de Portugal em 1951 e terminaria o seu mandato em agosto daquele ano. Era, por assim dizer, uma viagem-prêmio. De fato, dois meses depois de seu retorno a Portugal passou o cargo para o Almirante Américo Thomaz.

Portugal era comandado, de fato, por Antonio de Oliveira Salazar, nomeado Ministro das Finanças em 1928 e que havia assumido o posto mais alto do poder, como presidente do Conselho de Ministros, alguns anos depois. Salazar manteve-se à frente do governo até 1968 quando passou a sofrer de doença cerebral em conseqüência de uma queda. Morreu em 1970 sem ver o fim do regime que tinha comandado por tanto tempo, derrubado pela “Revolução dos Cravos” no histórico 25 de Abril de 1974.

Ainda era grande, naquela altura, a presença no Brasil de cidadãos nascidos na terra de Vasco da Gama. Ninguém havia esquecido a extraordinária figura de Carmen Miranda, portuguesa da Beira Alta, morta dois anos antes quando ocupava no ápice de sua carreira como intérprete da musica popular brasileira. Os jornais registravam o fluxo contínuo de personalidades no mundo artístico português como a fadista Amália Rodrigues, a atriz Beatriz Costa e muitos outros que tinham grande acolhida entre o público português que aqui vivia e entre os próprios brasileiros. Alguns por aqui ficavam dando seqüência às suas carreiras e ao restante de suas vidas. Outros voltavam não sem fixar o Brasil – ou os brasileiros – em suas vidas, como foi o caso de Beatriz Costa que se casou com um empresário de São Paulo. Ou, ainda, como que para coroar a intensidade dessa união, o caso do banqueiro português que se apaixonou e casou com a mais bela brasileira daqueles tempos, a baiana Marta Rocha.

A maior parte da colônia estava justamente no Rio de Janeiro, atuando nas mais diversas atividades, mas ocupando espaços bem característicos, como o das padarias, quase cem por cento lusitanas. A seguir, ou talvez no mesmo nível das padarias vinha o Vasco da Gama, tradicional clube de futebol do Rio de Janeiro, com uma legião de torcedores que incluía todos os estratos sociais da capital.

A presença no mundo religioso, assistencial ou cultural também era fator de destaque da comunidade lusitana. Havia a Beneficência Portuguesa, um dos mais completos hospitais da cidade, a Ordem Terceira e o Real Gabinete Português de Leitura. Acima de tudo, a igreja de Nossa Senhora da Candelária, pela sua história e localização geográfica muito particular, na esquina formada pelas duas mais importantes avenidas da cidade, a Presidente Vargas e a Rio Branco, era um dos marcos mais conhecidos do povo carioca.

Por mais que fosse disputada a agenda do ilustre visitante não poderia deixar de incluir uma missa solene na Igreja da Candelária. Foi marcada para o domingo, nove de junho, ao meio dia, a ser oficiada pelo Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara. Para mais, o programa foi incluído na agenda oficial, o que exigia também a presença do chefe do governo brasileiro, o Presidente Juscelino.

No dia marcado a Candelária se encheu de gente logo cedo. Lá estava todo o efetivo da Irmandade e das instituições por ela mantidas, inclusive o Gonçalves de Araújo presente na sua totalidade: as freiras, professoras e os internos: meninos e meninas. Boa parte das meninas, minha irmã entre elas, fizeram parte do grande coro que se apresentou durante a missa. Eu e meus colegas coroinhas fomos chamados para ajudar no altar.

Ficamos assustados com a responsabilidade de participar de um evento tão importante, com a presença de dois presidentes. Até a hora da missa começar eu ficava imaginando como seriam suas expressões, como estampariam o poder e a importância que tinham.

Mas na hora da cerimônia a surpresa foi ainda maior: estávamos a menos de dois passos de JK e Craveiro e das respectivas primeiras damas. Ambos tinham sido colocados lado a lado, juntamente com as esposas, a poucos metros do altar-mor.

Por estarem assim tão perto pude observá-los várias vezes e registrar suas fisionomias. Ambos tinham o mesmo tipo físico e pareciam ter quase a mesma idade. Na verdade Craveiro tinha 63 anos, oito anos mais velho que JK.

As missas daquele tempo não eram eventos muito apropriados para que se pudesse examinar muitos detalhes de quem as assiste, qualquer que fosse a importância ou destaque da pessoa em causa. Como todos os fiéis, deveriam ajoelhar-se ou ficar de pé, ou sentado, conforme as exigências do ritual. Só era necessário movimentar os lábios para dizer, em coro, os “Améns” ao final das preces ou para, num momento mais solene, receber a comunhão. No resto do tempo eram apenas espectadores. Era uma solenidade em que políticos não deveriam se sentir muito à vontade, acostumados a terem sempre a prerrogativa de discursar e de fazer de suas palavras o centro das atenções.

Para nós, apesar da oportunidade que nos colocava tão próximos daqueles personagens, não havia muito que ver ou interpretar daquelas figuras estáticas. Não era possível discernir nenhum sinal que caracterizasse o poder que deveriam ter ou suas qualidades morais ou suas habilidades políticas apenas pelos trajes que vestiam, um civil, outro militar. JK manteve uma aparência distante, como seus pensamentos estivessem longe dali. Parecia cansado. Craveiro Lopes, por sua vez, dava a impressão de estar mais envolvido com o ambiente e com o que se passava à sua volta. Parecia contente pela forma como estava sendo recebido. Talvez suas fisionomias refletissem de certo modo as responsabilidades que pesavam sobre cada um.

Felizmente, apesar de longa e solene, a missa decorreu sem qualquer imprevisto nas nossas atividades de coroinhas. Na verdade nosso papel foi pouco mais que decorativo porque o cardeal que celebrou a missa esteve sempre apoiado por vários padres que atuaram como acólitos. Ficou-nos a tarefa de, nos dias seguintes, responder às perguntas dos colegas sobre tudo o que eles imaginavam que pudéssemos ou não ter enxergado nas ilustres figuras presidenciais.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Leituras

A curiosidade é uma das maravilhas da espécie humana. Depois da saudade da família o que mais eu sentia no internato era a limitação do exercício da curiosidade pela carência de informações e de novidades que a estimulassem. Aquilo acabava acentuando a sensação de exclusão do mundo.

Volta e meia alguém levava um jornal para o colégio. As freiras liam, faziam comentários entre si, mas era difícil entender o conteúdo daquelas conversas. As crianças não tinham acesso aos jornais. Melhor dizendo, só tínhamos acesso aos seus fragmentos. Era quando precisávamos de papel para ir ao banheiro. Para não onerar o orçamento as freiras recortavam os jornais velhos em pedacinhos e nos davam meia dúzia deles cada vez que tínhamos que ir fazer as nossas necessidades. Com alguma sorte conseguíamos juntar dois pedaços de uma mesma página e encontrar alguma novidade interessante. Eram sempre lidos e relidos com muita atenção. Quando não dava para entender, tentava-se advinhar. Líamos desde os pequenos anúncios, necrológios, até as corridas de cavalos. Nada escapava. Com sorte ganhava-se uma tirinha do Pinduca, ou do Reizinho.

As outras formas de obter informações acabavam nos sujeitando a riscos e punições. Um dia acabei passando por uma experiência dessas.

O episódio aconteceu em 1957, na época em que a Irmã Alegria estava doente. Quando ela foi para o hospital algumas funções tiveram de ser redistribuídas. No horário das refeições, por exemplo, era costume a Irmã Alegria ficar no andar de cima, de plantão, para atender algum eventual chamado de telefone ou do portão. As outras freiras desciam para o refeitório junto com a criançada. Assim, na ausência da Irmã Alegria foi preciso escalar algum dos meninos maiores para que assumissem aquele papel. Como eu fazia parte desse grupo e gozava de bom conceito com as freiras quase sempre era escolhido. Claro que à custa da fome encompridada. Depois, em compensação, servia-me à vontade.

Num desses plantões encontrei sobre a máquina de costura que ficava na sala onde tinha que guardar o meu posto, um exemplar de “O Cruzeiro”. Naquela época era a revista de maior circulação no país, famosa por ter introduzido e explorado ao máximo as técnicas do foto-jornalismo: quanto maior a foto, maior a polêmica ou o escândalo, ou vice-versa. O exemplar havia sido deixado por um sobrinho da Irmã Vicência, o Elias, que fazia faculdade e que freqüentemente ia visitar a tia.

Curioso para saber o que acontecia no Rio de Janeiro e no resto do mundo, mas também para esquecer a barriga vazia, pus-me a folhear a revista a começar pela sempre engraçada página de “O Amigo da Onça”. E assim o tempo passou sem que eu desse por ele. Quando um colega me veio dizer que já podia descer para almoçar, fechei a revista e recoloquei-a onde a tinha encontrado. Já o almoço e o recreio me haviam feito esquecer da revista e do que nela tinha visto quando fui chamado à presença da freira. Ela me aguardava na sala, de pé, ao lado da máquina de costura. Estava brava: dera-se conta de que o objeto da minha curiosidade não estava exatamente no lugar em que fora deixada e tinha deduzido que eu havia lido a revista.

Até ai não achei que o assunto fosse grave. Uma bronca, um puxão de orelha, talvez. Não podia imaginar que ler uma revista tão popular e que servia de leitura para as freiras e seu sobrinho fosse algum pecado. Foi preciso que as freiras explicassem, não sem algum constrangimento, que aquela revista em particular continha muitas fotos do carnaval e fotos de muitas pessoas com roupas inadequadas para entrar num colégio de freiras, muito menos para serem vistas pelos olhos de um garoto que deveria se conservar inocente. Tentei argumentar, mas de nada adiantou. Tomei um baita sermão e fiquei sem direito de assistir à próxima sessão de cinema.

Nessa época eu já tinha onze anos, uma idade em que já se sabe um pouco de muita coisa e que se quer saber mais ainda. Idade suficiente para se ter algumas noções de certo e errado e de justiça. Achei que se me consideravam bom aluno e bem comportado a ponto de justificar que as freiras me dessem encargos maiores, essas condições deveriam também contar a meu favor, para minhas faltas ou deslizes. Talvez tivessem reconsiderado se eu soubesse argumentar melhor meus pontos de vista. Mas não soube e daí minha frustração. Chorei, ressentido, achando que o fato de não me terem dado o crédito que eu entendia merecer era castigo pior do que ter ficado sem cinema.

De qualquer forma a curiosidade não morreu ali. Mas ficou a lição: depois disso nunca mais deixei de prestar muita atenção no lugar e na posição em que as freiras esqueciam os novos exemplares de « O Cruzeiro ».

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A morte da irmã superiora

A morte era algo distante, como quase tudo o que acontecia no mundo real fora do colégio. Mesmo assim chegavam até nós as notícias mais trágicas envolvendo pessoas famosas, como o suicídio de Vargas em 1954 e a morte de Carmen Miranda, no ano seguinte. Foram casos que comoveram todo o Brasil e as freiras os comentavam entre si ou com as professoras.

Ali dentro a preocupação era apenas com o destino das nossas almas. Tínhamos que fazer o que a religião nos ensinava para merecermos sempre o reino dos céus. Mas era uma preocupação para dali a muitos anos. Criança não podia morrer, pelo menos não devia. Natural, isso sim, era que uma pessoa idosa ficasse doente e depois morresse.

E foi assim que, um dia, a morte veio bater à porta do colégio. Foi em 1957. Veio buscar a Irmã Alegria, nossa diretora. Ela era mesmo a pessoa mais velha do internato.

Ficamos sabendo que ela estava doente ainda no primeiro semestre daquele ano porque durante vários dias ela não saía do seu quarto. Seria uma indisposição segundo as outras irmãs. Depois veio o médico e receitou-lhe alguns medicamentos. O quadro deve ter piorado porque a levaram para um hospital no Matoso, que pertencia à congregação das vicentinas. Nós não sabíamos exatamente de que mal ela sofria. Mas desconfiávamos que era alguma coisa grave. Na hora das orações rezávamos sempre pelo seu restabelecimento.

Em julho ou agosto ela voltou ao internato. Estava muito mais magra e pálida. Sua aparência era extremamente frágil e parecia até que era o pesado hábito que a mantinha de pé. Sua voz era um fiapo e já não conseguia reproduzir a autoridade da madre superiora e da severa professora do 3º ano.

Viera apenas para se despedir. Depois de algumas semanas voltou para o hospital. Faleceu no dia 6 de setembro. Tinha 75 anos de idade.





O santinho que marcou o falecimento da Irmã Alegria.


Depois da morte da irmã Alegria é que ficamos sabendo que ela tinha câncer, então considerada uma doença muito grave e fatal. Alguns meninos diziam conhecer casos na suas famílias. Contavam que era uma coisa terrível, um tumor que devorava as pessoas por dentro, até a morte. Que geralmente dava em pessoas mais velhas, mas em crianças também. Diziam ainda que era contagioso e algumas outras bobagens. Aquelas conversas  arrepiavam e enchiam a todos de preocupação.

Depois desse episódio nunca mais se ouviu falar em morte no colégio. Irmã Vicência e irmã Luiza, deixaram o internato nos anos 70, com muita saúde, e tiveram as duas vidas longas. A irmã Vicência passou dos cem anos, e a irmã Luiza, chegou perto dessa marca.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Uma professora muito especial

Quando eu ainda vivia em Portugal havia freqüentado um jardim de infância que funcionava na casa de uma senhora vizinha. Tinha de usar um guarda-pó sobre a roupa, como uniforme, e carregava comigo uma pequena lousa para rabiscar as letras ou desenha. Era um quadro-negro portátil. Mas foi por pouco tempo e não cheguei a aprender grande coisa. No Brasil, ao completar sete anos, ainda estávamos em fase de adaptação e a prioridade da família era encontrar uma casa para morarmos e buscar alguma forma de sustento. A escola teria que esperar.

As lousas antigas, da minha primeira escola em Portugal.
A foto "L'information scolaire, Paris, 1958"
é de autoria do francês Robert Doisneau (1912-1994),
obtida no site www.robert-doisneau.com, em 24/07/2010 

A curiosidade é que não esperou. Era meu vizinho o primo Affonso, quatro anos mais velho que eu e já bem adiantado na escola. Como ele era filho único, meu irmão e eu éramos os seus companheiros de brincadeiras. Na rua e em casa. E quando ele tinha que fazer os deveres de escola eu pedia para ficar ao seu lado na mesa desenhando ou rabiscando qualquer coisa. Dava-me algumas folhas de caderno e, brincando, foi assim que aprendi as primeiras lições. Começou por me passar palavras para copiar e a me ensinar aritmética, que era o que eu mais gostava. Com o passar do tempo já resolvia com rapidez os problemas mais simples e logo lhe pedia outros. Assim, aproveitando os lápis, papel e a paciência do Afonso, quando entrei no Educandário já sabia ler, escrever e fazer as quatro operações. Aprendia brincando. O primo Affonso acabou por se tornar o meu primeiro professor.

No Gonçalves de Araújo tive apenas três professoras. Dona Glorinha (Maria da Glória, já não me lembro o sobrenome), da 2ª série, era a paciência e a bondade em pessoa. Na 3ª série foi a vez da Irmã Alegria, muito severa. Os anos já lhe pesavam e não tinha tanta paciência;  mais cobrava do que ensinava. Foi a dona Maria Luiza  (Feijó Figueira), na 4ª série, a primeira professora de verdade, a professora das lições mais difíceis.

Tinha cerca de cinqüenta anos. Muito magra e sempre vestida com sobriedade aparentava ser uma mulher frágil. Mas a sua energia parecia inesgotável quando assumia o seu papel de professora na sala de aula. Apesar de sermos apenas cinco alunos, pobres e de futuro duvidoso, ela se empenhava como se fosse a missão da sua vida. Em troca, exigia nossa dedicação. Era rígida com a matéria sem ser severa com os alunos. Mas não ficava por aí. A sua forma de nos envolver com as lições tinham o dom de nos ajudar a esquecer que estávamos no internato, distantes de casa e da família. Eram exigências novas, perguntas novas, desafios mais complexos e estimulantes do que os da convivência diária sob a rígida e monótona rotina do colégio. Sempre nos trazia novos livros, a pretexto de premiar nosso desempenho nas provas mensais. Livros que nos forneciam combustível para fazer voar nossos pensamentos para fora daqueles muros.

Sua dedicação acabou por ter um papel marcante naqueles primórdios da minha vida de estudante. Muito atenta ao desenvolvimento do grupo, foi ela que percebeu minhas afinidades com a matemática. No início do segundo semestre resolveu convencer as freiras a me inscrever num concurso que havia na época, ao estilo das atuais “olimpíadas de matemática”. Tanto insistiu que as freiras acharam que eu talvez tivesse alguma chance e foram levar o assunto para o Provedor. Veio a autorização e assim fui inscrito como representante do internato.

A primeira etapa era regional e envolvia os alunos das escolas de São Cristóvão e bairros vizinhos. Alguém me levou para a escola onde seria feita a prova, num local desconhecido e no meio de pessoas e crianças que nunca tinha visto. A única coisa familiar eram o lápis, o papel e a matéria da prova.

Algumas semanas depois a Irmã Vicência foi me chamar no pátio de recreio dizendo que a Irmã Alegria queria falar comigo. É que tinha chegado a notícia do resultado da tal prova e estava classificado para participar da próxima etapa. Tirara o 1º lugar. Fiquei contente e as freiras também, mas ninguém ficou mais feliz do que a minha professora. As freiras me elogiaram e a Irmã Alegria me deu como prêmio um medalhão de Nossa Senhora das Graças, numa moldura de plástico leitoso, desses que ficam visíveis no escuro.


Na segunda etapa participavam os melhores colocados em todas as regionais do então Distrito Federal. Já não me senti tão deslocado quando tive de ir para um outro local, com outras pessoas, para a última prova. Só que agora tinha medo do resultado. Não fui tão mal: fiquei com o 3º lugar.

Naquela época minha mãe vivia em São Paulo e por isso ela só ficou sabendo do episódio por uma carta que lhe escrevi, todo prosa, embora com termos contidos porque tinha que ser submetida à censura das freiras. Fui encontrar essa carta muitos anos depois, entre as lembranças que minha mãe havia conseguido guardar daqueles anos atribulados.

Algum tempo depois ocorreu o evento de premiação, no teatro João Caetano. Estavam lá a Olímpia e a tia Alice. Ganhei uma coleção de livros do Monteiro Lobato.

Aquela experiência foi uma revelação de algo que eu era capaz de fazer bem e ser por isso reconhecido. Uma revelação que eu devia à minha professora. Dali por diante o meu mundo ganhava uma nova dimensão e o tempo parecia passar mais depressa.

A 1ª página da cartinha enviada para minha mãe comunicando os resultados do concurso

sábado, 24 de julho de 2010

A peste


Durante minha estada no internato poucas lembranças ficaram de doenças que nos tivessem afetado. O único caso foi quando começamos a aparecer com feridas nas pernas, que coçavam muito e não cicatrizavam. Com o passar dos dias mais meninos ficavam contaminados. Passamos um mau bocado com as incomodas feridas que não saravam por mais mercúrio-cromo e pomada “Minâncora” que se aplicasse. Depois de algumas semanas sem resultados as freiras fizeram vir um médico que logo identificou se tratar de impetigo. A medicação, à base de banhos de permanganato foi eficaz e a cura rápida. Foi logo no início do ano e terá vindo incubado em algum de nós no retorno das férias.

O caso de doença mais relevante foi uma infecção de ouvido que um dos meninos contraiu e que as freiras não conseguiram curar com os remédios caseiros. O coitado não reclamava, mas todo muito ficava incomodado pelo visual que resultava. Tiveram que chamar o médico e por alguma razão o garoto teve de ir para casa. Voltou meses depois, curado.

Os resfriados eram relativamente freqüentes, mas sempre sem conseqüências. Em 57, porém, ocorreu um surto de gripe que deixou todo mundo assustado. Era a chamada “gripe asiática”. Eu tinha ouvido de minha mãe as estórias que os tios dela lhe contaram sobre a “gripe espanhola” que havia matado milhares de pessoas no Rio de Janeiro e milhões no mundo todo. Matou até o presidente Rodrigues Alves, já eleito mas que não chegou a tomar posse. Isso no distante ano de 1918. Felizmente a “asiática” era um vírus menos violento e não chegou a cruzar o portão do colégio. Mesmo assim teria vitimado cerca de um milhão de pessoas mundo afora.

Apesar do constante sobe e desce pelas escadas, das brincadeiras no recreio e da arriscada prática de “esquiagem” nas varandas ensaboadas, em dia de faxina, nenhum de nós sofreu qualquer fratura ao longo daqueles anos. Parece que todos tínhamos um bom anjo da guarda.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O teatro

Em 1956 aconteceu a Olimpíada de Melbourne, na Austrália. Foi quando Ademar Ferreira da Silva conquistou o bicampeonato no salto triplo. Era um feito que amenizava o sentimento de frustração com o fracasso no futebol em 50 e 54. Talvez estimulado por aquele evento o colégio recebeu pouco tempo depois uma professora de ginástica. Jovem e cheia de idéias dedicou-se com afinco para nos ensinar exercícios físicos, mas, também, novos jogos e brincadeiras. A certa altura conseguiu convencer as freiras a montar uma peça de teatro para ser encenada pelos alunos. A peça era, na verdade, uma apresentação de ginástica artística infantil.

A realização do projeto exigiu muito trabalho. Tanto com a montagem, como, principalmente, com os ensaios. Passamos várias semanas nessa lida. A idéia era montar um palco no salão grande do segundo andar, um dos que estavam permanentemente fechados. Carecia, portanto, espantar as baratas e obrigar as aranhar a mudar para outro lugar; fazer uma limpeza em regra.
Como a maioria das dependências do colégio, o salão tinha piso de taco de madeira. Varrer o pó acumulado seria fácil, mas ia dar um trabalhão encerar e lustrar aquilo tudo na base do escovão. A causa, entretanto, era boa e muitos estavam dispostos a enfrentar a tarefa. Fui escalado para o pelotão encarregado da missão. Uma surpresa nos esperava.

Assim que entramos e começamos a abrir portas e janelas levamos um baita susto: dezenas de pulgas pularam para as nossas pernas e puseram todo mundo em retirada. Refeitos do susto a reação não tardou: alguém inventou a brincadeira de ver quem pegava mais daqueles bichinhos. Mas elas eram mesmo muitas e nos puseram para correr outra vez. Com as pernas cheias de picadas tivemos que apelar para as freiras e pedir equipamento pesado: as bombinhas “Super Flit”, com inseticida a base de DDT.

Ninguém sabia exatamente de onde tinham vindo tantas pulgas, mas as suspeitas recaíram sobre a pequena Yale, a cachorrinha das freiras.

Chegou enfim o grande dia da apresentação. A sala estava cheia, com as famílias dos alunos, as professoras e o pessoal da Irmandade da Candelária.

Eu participava em um grupo que tinha que fazer algumas manobras e formações pelo palco. Vestíamos calção azul e camiseta branca sem mangas e cada um de nós levava um par de alteres coloridos para com eles fazermos os movimentos ensaiados. Eram leves e pelo barulho que faziam quando se chocavam pareciam ser de madeira. Apesar dos ensaios, a coordenação coreográfica do grupo deixava muito a desejar. Nossos alteres nunca se chocavam ao mesmo tempo. Parecíamos um grupo de tocadores de castanholas destrambelhados.

Apesar das nossas muitas falhas todos ficaram satisfeitos pelo resultado. Mesmo sem me sentir à vontade naquele palco – para os meus parcos dotes artísticos já bastava ter de desempenhar o papel de coroinha todos os fins de semana – a experiência mexeu com a nossa cabeça. Foi realmente algo que deve ter ficado na memória de todos.

Pena que a professorinha tenha ficado pouco tempo conosco. Mas enquanto lá esteve foi como uma rajada de vento fresco.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Férias

O período de férias significava o retorno à vida livre, aos pés descalços e às corridas ladeira abaixo na “Escadinha”. De ir todos os dias à casa do tio Antonio, para buscar o pão e o leite. Ou pedir uma porção de cubos de gelo para refrescar o suco de tamarindo que havíamos catado na Julio Furtado. De ir assistir com os primos o Teatrinho Trol e depois o futebol na tevê da tia Isabel. E, na volta, passar de visita na casa da vovó Olívia para ganhar uma refrescante “Grapette”. De cortar o cabelo à “Príncipe Danilo” na barbearia do seu Artur e esquecer o corte “franjinha” que nos faziam no colégio. De ouvir, à noite, no rádio, as histórias de “Jerônimo, o Herói do Sertão” e as piadas do “Balança-mas-não-cai”. De soltar pipa e de ir com o Afonso pelos terrenos baldios colocar armadilhas e arames com visgo para pegar biquinho-de-lacre. De disputar o campeonato carioca e até a copa do mundo jogando botão com meu irmão e meus primos. De jogar bola com os vizinhos da rua. De brincar de amarelinha e de pique com as meninas.

Logo vinha o Natal. Sempre arranjávamos uma árvore pequena porque dos enfeites que tínhamos trazido de Portugal poucos haviam se salvado. Completávamos a ornamentação com jilós embrulhados em papel prateado. Tínhamos também um pequeno presépio de papelão para colocar no pé da árvore. Estava pronto o cenário para esperar o Papai Noel. No dia 24 minha mãe nos fazia colocar os sapatos na janela, ainda seguindo a tradição portuguesa, e de manhã lá encontrávamos qualquer coisa que ela havia conseguido comprar. Depois íamos fazer a visita ao tio Antonio levando as rabanadas que minha mãe era especialista em fazer. Lá, então, sempre ganhávamos brinquedos de verdade.

Depois do Natal vinha a temporada das visitas. Ir à casa do tio Damião em Marechal Hermes era um dos programas que minha mãe fazia questão de fazer nas férias, quando podíamos ir todos juntos. Ele era um dos muitos irmãos do pai dela e tinha vindo há muitos anos para o Brasil. Arranjou casamento e por cá se deixou ficar. Mais tarde adotaram um menino, o Paulinho. Moravam numa casinha simples cedida pelo patrão e tentavam reproduzir, no subúrbio do Rio, o estilo de vida da sua aldeia em Portugal. Naquele tempo ainda era possível. Tinha um par de vacas que lhe ajudavam a preparar um pequeno espaço de terra onde plantava alguma coisa e, principalmente, para puxar uma carroça com que fazia transportes de materiais para as obras que iam aos poucos se multiplicando nas vizinhanças. Eu gostava de lá ir, mais que tudo, para ver e colocar as mãos nos animais e relembrar os passeios em carro de bois quando ia visitar os parentes no interior de Portugal.

Um outro fim de semana era para ver a Cléa, prima da minha mãe. Ás vezes íamos na casa deles, no Campo dos Afonsos, mas gostávamos mesmo era de ir até a Praça Saens Peña, na Tijuca onde o marido dela trabalhava com um carrinho de pipocas. Era um ponto muito bom porque ali havia quatro ou cinco cinemas e o movimento era grande.

Por fim, chegava o carnaval. Embora minha mãe não fosse simpatizante de Momo fazia questão de dar uma espiadela no que acontecia pela cidade. No domingo de carnaval íamos todos dar uma volta de bonde até o centro, apreciando os pequenos blocos que se improvisavam aqui e ali ao longo dos bairros por onde íamos passando. No centro sempre havia mais agitação, blocos maiores, bandinhas “fuzarcas” repetindo as marchinhas famosas da época, mas tudo ainda relativamente calmo. Quase sempre São Pedro mandava um banho de água fria para refrescar o chão escaldante e as cabeças mais entusiasmadas pelos efeitos dos lança-perfumes, que naquela altura ainda eram utilizados sem restrições por foliões de qualquer idade.
O fim do carnaval prenunciava o retorno ao colégio.

terça-feira, 25 de maio de 2010

O telefone não fala!



Logo que a capela do colégio foi inaugurada alguns arranjos tiveram de ser feitos. É que todas as freiras queriam participar das orações do final do dia naquele novo espaço. O órgão já estava instalado no centro do coro e a Irmã Alegria e a Irmã Vicência se revezavam para tocá-lo. O problema é que a secretaria ficava a descoberto. Se o telefone ou a campainha da rua tocasse ninguém ficaria sabendo. A solução foi escalar um aluno para ficar de plantão enquanto todos iam para a capela. Um belo dia coube-me exercer essa função.

Acho que até aquela data nunca tinha feito a experiência de falar ao telefone. Claro que já conhecia o aparelho, mas só de vista. Tinha um na casa da vovó Olívia, no Grajaú, que era muito usado pela família. Eu até já sabia o seu número de cor, de tanto ouvi-la repetir no seu sotaque minhoto amenizado pelos quase quarenta anos de Brasil: « Aqui é o tresóito-quatruóito-nobecinco ». Todo mundo ia lá, ouvia, falava, parecia muito fácil. O do colégio era igual. Portanto eu não tinha o menor motivo para reclamar da convocação. Nem achei que era necessário dar a conhecer minha falta de experiência prática. Ia perder as orações sim, mas poderiam ser adiadas para outra ocasião. Afinal, seria divertido ficar ali, com um tempo extra para fazer a imaginação voar.

Pelo que eu já sabia era raro alguém ligar para o colégio. As famílias dos internos não tinham permissão para fazê-lo a não ser em circunstâncias muito graves. Mais raro ainda era soar a campainha do portão. Assim, no meu primeiro dia de plantão tudo ia muito bem, e só se ouvia o ruído abafado das orações na capela. Até que o inesperado aconteceu: o telefone tocou. « Que sorte! » pensei, « Justo no meu primeiro dia de plantão! » E lá fui às carreiras, tropeçando em tudo que havia pela frente, ao encontro do aparelho. Respirei fundo e caprichei para dizer « Alô!». Não podia sair fraquinho, nem gritado, nem tremido. Tinha que sair natural, da mesma forma que todo mundo fazia... O telefone continuou em silêncio... « Alô » repeti, com ansiedade. O mesmo silêncio... Foi aí que descobri não ter certeza de qual dos lados do aparelho era para escutar e qual para falar. Fácil, era só inverter a posição. Não funcionou, o telefone continuava mudo.

Por mais que eu alternasse as posições não conseguia escutar nada mesmo. Entrei em pânico, sem saber o que fazer... Meu dia de estréia no mundo da tecnologia das comunicações estava se transformando num total fiasco.

Foi então que, em desespero, resolvi dizer para aquela coisa que esperasse e, em seguida sai correndo chamar a freira. Ela ia me perguntar quem era e eu tinha que dizer a verdade: que não sabia. Mas como não tinha outro jeito, antecipando o vexame, fui assim mesmo e disse-lhe que o aparelho devia estar com problemas por que não falava. Acho que ela não acreditou pois voltou comigo “elogiando” o tempo todo a minha incompetência. Ela pegou o telefone como sempre fazia e falou e ouviu o que se dizia do outro lado. Fiquei vexado, claro, pela bronca e principalmente por não ter atinado com o que efetivamente tinha deixado de funcionar.

Depois de algum tempo tive uma nova oportunidade. Nesse meio tempo eu já tinha revisado todas as possibilidades de solução caso o problema se repetisse. Mas era improvável. Por que só comigo? Mas aconteceu! Novo apuro, novo vexame... Mistério.

Os companheiros ficaram sabendo da história e engrossaram a chacota por causa das minhas orelhas de abano, grandes mas incapazes de ouvir ao telefone.

O fato é que quando a coisa se repetiu pela segunda vez as freiras quiseram tirar a coisa a limpo. Experimente assim, faça desse outro jeito... Até que... Heureca! Nada de errado com o aparelho, era mesmo o meu ouvido que não funcionava!

Como eu era destro era natural que pegasse o aparelho com a mão direita e o levasse ao ouvido direito, que não funcionava. O do lado esquerdo era normal, ouvia perfeitamente, e por isso, no dia-a-dia, nem eu nem ninguém se dava conta do problema. Afinal, quem iria imaginar que aquele menino de orelhas grandes tinha problemas de audição.

O caso ficou por isso mesmo. Eu não tinha nenhuma infecção ou problema visível que exigisse cuidados médicos de urgência. Talvez fosse problema congênito. Só anos mais tarde é que tive condições de consultar um especialista. Pensei que o problema tivesse conserto. Através de um exame de audiometria se constatou que o nervo auditivo estava completamente inoperante. “Você teve sorte por só ter sido afetado num dos ouvidos” disse-me o médico. “Não posso garantir, mas é muito provável que tenha sido uma conseqüência do sarampo” completou.

De fato eu havia contraído a doença logo nos primeiros dias da minha chegada no Brasil. Naquela época ainda não existia a vacina, só descoberta em 1963, e por isso o sarampo costumava deixar seqüelas.

Com o tempo me acostumei com a situação. A adaptação exigiu aprender um pouco de leitura labial e a posicionar-me sempre para que meus interlocutores ficassem do meu lado esquerdo, onde eu pudesse ouvi-los direito. Só não consegui aprender a dançar. Era impossível manter a conversa com o meu par falando no meu ouvido direito. E se mantinha a conversa não acertava o passo!